Há cinquenta e dois anos, ao raiar da madrugada, os cravos floresceram nos canos das espingardas e Portugal acordou para a liberdade. Um dia que mudou para sempre o destino do país e, com ele, o destino da Madeira.
Este ano, o Presidente da República marcou o seu regresso à Assembleia da República com um cravo vermelho na lapela. A primeira vez em vinte anos. Um gesto modesto e simples, mas com um significado profundamente simbólico, marcando o reencontro entre a mais alta magistratura do país e a memória viva da Revolução.
Na Região, as cerimónias oficiais cingiram-se à Assembleia Legislativa da Região Autónoma, instituição que existe na sua forma porque houve 25 de Abril. No Funchal, capital de uma Região que tanto deve a esta data, o município voltou a abdicar da festa. Felizmente, houve quem não abdicasse das festividades e a Marcha da Liberdade percorreu o centro da cidade, do Largo do Município à Assembleia Legislativa, e o PS-Madeira marchou ao seu lado.
As Mulheres Socialistas da Madeira escolheram para este 25 de Abril o mote “A Liberdade é pouco”. Pouco, sim, quando uma família madeirense já não consegue arrendar casa na sua própria terra. Pouco, quando se espera meses por uma consulta de especialidade e quando, em média, vivemos dois anos a menos do que os continentais. Pouco, quando o Orçamento Regional para 2026 corta cinquenta milhões de euros à saúde e mais de sessenta milhões à habitação, precisamente nas duas áreas em que a vida das pessoas mais reclama atenção. Pouco, quando o partido que governa há quase cinco décadas decide, em pleno mês de Abril, alterar os seus próprios estatutos para que o seu líder possa permanecer no poder sem limite de mandatos. Há cinquenta e dois anos derrubamos um regime que não admitia alternância. Cabe-nos perguntar, com toda a serenidade democrática, que sinal estão a dar quando, em 2026, desenham instituições à medida de quem as ocupa.
Sei bem que o 25 de Abril não foi o único momento que construiu a liberdade que hoje vivemos. Antes dele, houve resistências, presos políticos, mulheres e homens que pagaram caro o direito a discordar. Depois, veio a Constituição de 1976, a adesão à então Comunidade Económica Europeia, o reforço do Estado social e a consolidação das instituições. Mas é justo dizer-se: foi com o 25 de Abril que pudemos, finalmente, abrir a porta da nossa liberdade. Foi com aquela madrugada que se permitiu votar, reunir, criticar, escrever, viajar, sonhar.
E à Madeira, o que nos trouxe esta data? Trouxe-nos a Autonomia, que celebra agora os seus 50 anos. Trouxe-nos o direito de eleger os nossos representantes. Trouxe-nos escolas em todos os concelhos, hospitais, estradas e um Serviço Regional de Saúde ajustado à nossa realidade. Trouxe-nos a integração europeia e, com ela, a política de coesão que tanto fez por esta Região.
E em 2026, num mundo cada vez mais polarizado, com guerras às portas da Europa, populismos a erguerem muros e uma emergência climática a empurrar-nos para tempestades cada vez mais violentas, a liberdade exige mais do que memória: exige cuidado.
Em pleno 2026, há ainda quem prefira o silêncio à festa, o esquecimento à memória. Mas celebrar o 25 de Abril não é nostalgia: é responsabilidade. É lembrar a quem hoje nasce em liberdade que essa liberdade teve um preço, teve um dia, teve um povo que a fez nascer e que, acima de tudo, nunca se resignou. Festejar a Liberdade é garantir que ela permaneça nossa.