Nesta última semana, despedimo-nos de um dos grandes da literatura portuguesa: António Lobos Antunes. Nas inúmeras homenagens que lhe fizeram, estava a divulgação de um vídeo com uma das muitas entrevistas que deu. Nesse vídeo, o escritor explicava uma das razões porque escrevia. A história é simples: quando estagiava como médico numa ala de internamento pediátrico, morreu uma criança. Um menino de apenas quatro anos. Ao contrário do que acontece com os adultos, não vieram dois maqueiros e uma maca para o levarem para a morgue. Veio um único homem, que embrulhou o menino num lençol e o carregou ao colo. António Lobo Antunes foi a testemunha silenciosa desse último colo do menino. E, à medida que o homem se distanciava, no longo corredor do hospital, reparou que um dos pés da criança saíra do lençol e balançava. Nessa altura, pensou: tenho de escrever para aquele pé. Ou seja, tinha de escrever para tudo o que não tem voz, para tudo o que não chega a ter história, nem memória, para tudo o que é anónimo e silencioso, mas não menos humano.
Confesso que as palavras de Lobo Antunes ficaram a ressoar em mim. Porque escrevemos? E sem a experiência do colo, do pé e da criança que morre anonimamente, acredito que escrevemos para uma memória que não queremos perder, para que aquilo que vivemos não seja intransmissível e se perca nos caminhos do inevitável esquecimento. Escrevemos para não morrer e para que os que nos morrem possam viver de uma outra forma, uma outra vez e mais outra ainda.
De todas as vezes que escrevo, reescrevo e revivo a vida, a infância, a criança que fui, a adolescente, a adulta, e escrevo também todos os que habitaram esse espaço entre a certeza da mortalidade e o desejo de infinito.
Acredito que, de cada vez que escrevo, por exemplo, sobre o meu pai, ele vive de outra forma, como que regressa a mim e à casa, hoje já outra, mas sempre igual numa memória que se aciona através de palavras.
Cada vez que escrevo, é como se fosse possível essa viagem no tempo, como um regresso a casa, à essência dos lugares, ao colo, ao abraço, ao infinito de sermos carne e palavra, uma coisa que existe no tempo e outra coisa ainda por vir no (des)tempo.
Escrevemos, no limite, contra a morte, aquela que exercemos em nome próprio e aquela que nos é dada a perder no fim da vida dos outros.
Sim, escrevemos contra uma inevitabilidade de solidão, contra a existência de uma persistência da perda perene em tudo o que conquistamos, contra a invisibilidade que paira em todos os nossos gestos e, sobretudo, em tudo o que sentimos
Para quantos pés escrevemos ao longo da vida? Para que objetivos exercemos a escrita contra o esquecimento? Quantos mortos levamos ao colo quando escrevemos. Com toda a certeza, levamos uma segunda vida naquilo que deixamos por escrito contra a desmemória, o anonimato e o esquecimento.