Estava eu descansadinha, num destes dias em que só queremos fechar o computador e não fazer nada no sofá. Tinha ouvido falar de um novo documentário, disponível na Netflix e pressionei “começar”. Passei uma hora e meia de boca aberta, incrédula. Se não sabe do que estou a falar, refiro-me ao ‘Dentro da Manosfera’.
Este é um universo online onde grupos de homens partilham ideias sobre masculinidade, relações e poder, muitas vezes centradas em ressentimento e frustração, especialmente contra mulheres.
Desde então, tenho pensado muito no que vi. Estes homens, ou melhor, estes rapazes, estão mesmo muito perto de perceber o que lhes acontece.
Se ouvirmos com atenção, por baixo de toda a conversa da “pílula vermelha”, da dominância, dos tais “homens de alto valor”, há coisas que fazem sentido. Falam de se sentirem descartáveis, de trabalhos que não os valorizam.
Falam de frustração, de solidão, de perda de oportunidades, de não serem ouvidos. E, de certo modo, têm razão. O que lhes dói é real. Estão só errados no alvo.
Porque estão a centímetros de perceber o que realmente está errado: um sistema que concentra poder e riqueza, que deixa muita gente para trás, que cria esta sensação de impotência. Mas, no último segundo, há um desvio: “A culpa é das mulheres.”
E é aqui que tudo descarrila. Uma frustração legítima acaba virada contra quem tem, na verdade, menos poder. E isto não é um acidente. É assim que o sistema funciona. Diz aos homens que o seu valor está no que ganham, no controlo que têm, na capacidade de não mostrar fraqueza. Que sentir é um problema. Que pedir ajuda é falhar. Que vulnerabilidade é fraqueza.
Quando isso inevitavelmente não chega, quando a vida não corre como prometeram, dá-lhes alguém para culpar. Mulheres. Imigrantes. Quem for mais fácil. Qualquer pessoa, menos quem está a definir as regras.
No meio disto, há ainda quem ganhe dinheiro com tudo isto. Uma indústria inteira à volta da raiva, que mantém estes homens zangados, agarrados a uma narrativa simples e repetida. Os de cima lucram, os de baixo repetem e consomem. O que parece escolha é, na verdade, controlo. É manipulação.
E, mesmo assim, há dor ali. Solidão. Frustração. Coisas não resolvidas. Muitos nunca aprenderam a lidar com isso. Nunca lhes foi permitido. E então transformam tudo em raiva. Porque a raiva é uma das poucas emoções que lhes foi sempre permitida.
É assim que vemos estes espaços online crescerem, onde o objetivo não é conversar. Onde as mulheres são muitas vezes reduzidas a caricaturas, a conteúdo, a objetos. Se a conversa fosse séria, se houvesse espaço para complexidade, tudo isto começava a cair. E há ainda uma mudança mais profunda por trás de tudo isto.
As mulheres mudaram. São mais independentes, qualificadas, livres para escolher. Já não precisam de relações para sobreviver; escolhem-nas. E isso muda completamente as regras do jogo.
Se durante décadas o valor de um homem estava ligado ao facto de ser necessário, o que acontece quando deixa de o ser? Tem de oferecer outra coisa: inteligência emocional, vulnerabilidade, capacidade de criar ligação. Implica enfrentar partes de si próprio que muitos passaram a vida inteira a evitar.
Não é fácil. Mas também não é novo. As mulheres já fazem esse trabalho há muito tempo, entre amigas, em conversas difíceis, em processos de crescimento que raramente são visíveis, mas que são reais.
Agora, esse mesmo trabalho está a chegar aos homens. Não como castigo. Mas como saída. A verdade é que eles não estão assim tão longe de perceber o que lhes está a acontecer. Estão só a ser apontados na direção errada.