Os mais velhos lembram-se do tempo em que corria uma silenciosa teoria no sentido de não se falar de problemas para não os despertar.
Era uma espécie de crença popular embrulhada em aparente fundamento científico. Isso acontecia em relação aos incêndios, com a ideia de não acicatar os pirómanos, ou com certas doenças ‘cujo nome não se podia dizer’. E foi assim durante anos.
Da resistência ao entusiasmo
Talvez essa forma de pensamento reservado ajude a explicar uma curiosa tendência que parece instalada na Madeira: perante qualquer ideia nova, alimenta-se alguma reserva à espera de ver para que lado caem as sentenças. Depois, segue-se um de dois caminhos: a ideia é socialmente validada ou puramente desprezada.
Às vezes, os dois caminhos encontram-se tempos depois e o que era muito mau passa a ser muito bom.
Há vários exemplos em que as opiniões passaram da resistência pura ao entusiamo coletivo com a mesma velocidade com que crescem acácias e eucaliptos.
Quatro casos
Lembram-se das teorias mais acérrimas contra o uso de meios aéreos no combate aos fogos florestais? Durante anos, era quase pecado imaginar um helicóptero a sobrevoar áreas de fogo. Depois dos incêndios de 2016, deixou de ser assim.
O que mudou? Nada. Mas hoje é impensável não ter pelo menos um meio aéreo disponível.
E as políticas sociais? Durante anos, ajudar os mais carenciados de forma regular era alimentar vadios. Depois, veio o famoso Rendimento Social de Inserção e democratizou os apoios, mesmo com exageros que persistem.
O que mudou? Nada. Mas agora os governos nacionais, regionais e locais multiplicam apoios sociais.
Outro exemplo: a taxa turística municipal. Quando uma Câmara implementou esse modelo foi um coro de críticas. Que ia acabar com o turismo, que os turistas passariam para outros concelhos e regiões, que os operadores seriam prejudicados e até seriam canceladas viagens.
O que mudou? Nada. Mas agora quase todos os concelhos têm a sua taxa.
O próprio Subsídio Social de Mobilidade, hoje reclamado por toda a gente, encontrou alguns resistentes que achavam um abuso o Estado financiar tanta viagem barata só para ir passear a Lisboa.
O que mudou? Nada. Mas a esmagadora maioria não aceita menos do que está.
O debate mais recente
Estes exemplos ajudam a perceber o debate da moda: o novo campo de golfe do Faial. Percebe-se que é uma proposta capaz de apaixonar uns e afastar outros. O que não se entende tão facilmente é tanta gente a dar palpites ao sabor do vento.
Não se fala aqui de quem estuda o tema e lança propostas sérias. De quem discorda do investimento público e reclama o envolvimento dos privados. Fala-se de quem se opõe sem apresentar alternativa. De quem confunde uma opção capaz de captar turismo e criar riqueza local, com carências noutras áreas. De quem desconhece o vale da ribeira do Faial, que há décadas espera por investimento público com a devida valorização e indemnização da propriedade privada.
Independentemente do modelo de negócio a seguir, que deverá passar por concessão e até poderia partir de iniciativa privada, é preciso olhar para o que existe e o que pode ali ser feito. Não fazer nada por desconhecimento ou criticar por interesse político é alimentar opiniões que tão depressa pegam de galho como secam com a concretização do investimento.