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Artigo de Opinião

Economista

13/06/2026 08:00

Um cenário diz muito sobre a qualidade do espetáculo. Ontem, numa amálgama de efemérides, a Fortaleza do Pico deu palco à cerimónia comemorativa dos 50 anos da autonomia da Madeira e dos 40 anos de adesão de Portugal à então CEE. Atrás do palco, saltou à vista uma parede amarela esburacada, com evidentes sinais de desgaste e manchas — a parede da fortaleza filipina outrora tão cobiçada pela Região, depois de ter estado durante décadas sob a alçada da Armada Portuguesa.

Realmente, era impossível a comissão executiva ter escolhido um melhor símbolo para as comemorações dos 50 anos de autonomia na Madeira. Lembremo-nos porquê: “Cabe agora à região dar um destino de utilidade pública”, afirmou em 2014, o então presidente regional, Alberto João Jardim, aquando da assinatura do auto de transferência definitiva do monumento para o património da Região.

Contudo, olhando para o cenário de ontem, urge perguntar: se não sabemos cuidar, porque reclamamos constantemente mais? “Ter por ter” não pode ser o leitmotiv da autonomia. Nem a perpetuidade pessoal no poder pode ser confundida com um objetivo de “estabilidade” por si só. A política autonómica, tal como se encontra plasmada na Constituição, atribui os instrumentos de autogoverno político e administrativo sempre com o objetivo do desenvolvimento integral da sociedade. Uma autonomia que não serve a população é uma autonomia de fachada.

Os jornalistas assinalaram outra evidência no evento de ontem: “largas dezenas de assentos por ocupar”. Na realidade, não há melhor sítio para se isolar da população do que numa fortaleza. Na época filipina, precisávamos de construir uma fortaleza para nos defendermos dos ataques dos corsários. E hoje, quem são os corsários? Por mais que se ensaiem discursos de ódio contra inimigos externos, não há mais ninguém a culpar senão nós próprios, por termos deixado a autonomia chegar a este ponto, tal qual aquela parede desgastada pelos elementos na Fortaleza do Pico. Sim, todos nós. Seja por termos diretamente validado essa narrativa dominante, seja por termos escolhido a bênção da ignorância ou, mesmo, por não termos dado o devido valor à pluralidade política na nossa região. Porque se chegámos a este grau de descuido de nós próprios com a autonomia, tal é também consequência da falta de alternância política e da ausência de uma verdadeira lufada de ar fresco governativo (ao contrário do que a renovação prometeu, mas não cumpriu).

E, no meio daquele cenário, estava o Presidente da República, António José Seguro, na sua primeira visita presidencial à Madeira. Comparado com o banho de multidão na Terceira que o recebeu uns dias antes, é mais que evidente que não foi dada ao Presidente da República a visita que ele merecia — nem aquela que nós, madeirenses, merecíamos dar-lhe. Foi uma celebração envergonhada pela forma como uma minoria, cada vez mais isolada, açambarca a autonomia.

Olhando para os próximos 50 anos de autonomia, só posso desejar uma renascença política para a nossa região. Onde a autonomia não sirva apenas para garantir algumas carreiras políticas, mas para ajudar a nossa sociedade a afirmar-se perante os verdadeiros desafios do século XXI, como um instrumento de desenvolvimento socioeconómico que consiga fixar as novas gerações na nossa terra. Não há maior razão de ser para a autonomia do que essa.

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