Em algumas manhãs, quando passeio o cão, passo, por vezes, junto a um edifício de habitação social. Quando calha passar, não há um dia em que, da rua, não se ouça, um casal aos gritos e uma criança a chorar. As vozes são jovens, o choro é de uma criança muito pequena. A tristeza que o som traz até à rua é imensa, velha, transporta todo o desespero de um mundo que não nasceu ali, mas que é a continuidade de uma miséria que se cola às paredes da casa nova, que se cola a quem lá vive amparado por um teto, mas não amparado contra a mais profunda aridez de um chão infértil ao amor e a uma dignidade humana que possa usar esse nome com propriedade. O que ali vive é um desespero maior do que a luz da manhã, mais profundo do que o dia que nasce.
Aquele desespero não vem apenas do desamor que parece crescer todos os dias entre um homem, uma mulher e uma criança embalada pelo terror, é o desespero de uma pobreza que vive entre quatro paredes e que projeta o seu som na rua, quando a manhã está a nascer e ainda não deveria haver espaço para as palavras duras que são proferidas, atiradas como pedras ou balas perdidas.
Penso sempre que este desespero de quem pouco ou nada tem, e por isso grita, devia ser ouvido por aqueles que, no meu país, se preparam para, mais uma vez, atirar à pobreza e aos pobres como se eles fossem o inimigo. Sim, gostaria que este desespero e estes gritos chegassem aos pistoleiros da Prestação Social Única, dos canais de denúncia que, tal como em tempos de má memória, pretendem fazer de vizinhos polícias da miséria alheia. Porque, sejamos sérios, ninguém enriquece com prestações sociais, ninguém vive na opulência com as migalhas do Estado Social, ninguém vive acima das suas possibilidades com pensões.
O que é que há para denunciar na miséria, a não ser a própria miséria?
Um país que atira contra os seus só pode ser gerido por pistoleiros. Um país que atira contra os seus é contrário a si mesmo.
A poeta Filipa Leal, escreveu, um dia, um poema, intitulado Europa, no qual dizia que o velho continente disparava contra a luz, disparava contra os seus filhos, que apenas queriam paz e que apenas tinham fome e medo do escuro. E dizia mais, que o facto de estarmos calados é porque, contrários ao gesto de quem dispara, a maioria não quer disparar. Sim, a maioria raramente quer disparar, a maioria dos que vivem no limiar da decência humana, apenas quer paz e silêncio, apenas quer calar os gritos que lhe saem da boca, apenas quer parar a guerra interior de um chão onde a miséria faz crescer uma miséria maior e ainda mais profunda. Um país que não vê isto é um país cego a atirar contra a luz, até que, um dia, apenas reste a mais negra escuridão e nela se possa esconder o seu próprio falhanço.