Esta semana, houve uma evidência que se impôs com a força das coisas simples no meio da calamidade que se abateu no nosso país: precisamos do Estado social. Precisamos dele não como abstração ideológica, mas como presença concreta — aquela que ampara quem ficou sem chão, quem tem menos recursos, quem é estruturalmente mais frágil.
É uma infraestrutura invisível de sobrevivência coletiva. Quando falha, não caem ideologias: caem pessoas. Talvez a calamidade tenha servido, ao menos, para isto — para lembrar que nenhuma sociedade resiste muito tempo baseada na ilusão da “auto-suficiência” e do recurso às companhias de seguros. Há uma escolha a fazer. Sempre houve.
Percebemos também, talvez com menos paciência para slogans, que gritar “o socialismo vem aí” como se fosse um cataclismo natural não passa de uma escolha política clara: a do “arranje-se cada um por si”. Uma escolha que ignora — ou finge ignorar — que o nosso território não é um campo nivelado, mas um mosaico de desigualdades profundas: económicas, demográficas, geográficas. E que se existem carrinhas para transportar os idosos nos dias de eleições, também deveriam existir quando há idosos que necessitam de oxigénio e não têm eletricidade para fazer funcionar o concentrador, que estão a dormir cobertos por lonas, e outros que ficam acordados durante a noite com medo que recomece tudo outra vez.
Segundo as contas de hoje, nove mortos. Um número seco, dito assim, como quem fecha um parágrafo, mas que carrega nomes, famílias, ausências definitivas. Num cenário de árvores caídas e de casas sem teto, ainda houve tempo - e meios - para produzir um vídeo de estética trumpiana de propaganda política de um ministro que recebe telefonemas, que coloca a mão na testa em gesto cénico de preocupação, que se recosta na cadeira... Quando a tragédia é real e o sofrimento é concreto, a coreografia do poder soa a ruído. Talvez o problema não seja o vídeo em si, mas o tempo em que foi feito, quando a ausência de pose diz mais sobre liderança do que qualquer banda sonora cuidadosamente montada.
Desde quando explicar que a Constituição portuguesa é antifascista passou a ser prova de extremismo? Desde quando falar de geopolítica, de conflitos, de desigualdades e da necessidade de um Estado social se tornou sinónimo de “socialismo”? Desde quando recusar o apagamento da História e a propaganda eticamente indecente — e ontologicamente estúpida — é crime ideológico? E desde quando defender que as ideias se discutem e não se impõem passou a ser uma ameaça?
Talvez o problema não esteja nas perguntas. Talvez esteja no desconforto que elas causam.
Foi por estas razões que assinei o Manifesto do Setor da Cultura em apoio a António José Seguro. Porque há momentos que exigem mais do que silêncio prudente. Exigem voz. Com os criadores, pensadores e agentes culturais, é preciso erguer essa voz num tempo decisivo: para proteger a democracia, recusar o discurso de ódio e a tentativa de reescrever a História, e afirmar uma linha clara contra o autoritarismo, a desigualdade e a desumanização. A cultura é um lugar de resistência quando o essencial começa a ser posto em causa.
A democracia constrói-se todos os dias, no diálogo, na memória e na ação. Não é um produto acabado, nem um slogan reutilizável. Por isso, uma democracia “embalada” em discursos de ódio, de desunião e de medo — nos quais soluções fáceis são vendidas como resposta a problemas complexos — precisa de encontrar quem lhe resista. Precisa de vozes que recusem a simplificação e insistam na responsabilidade de pensar, lembrar e agir. Ser humanos.
Quando a democracia é posta em causa, pensar já é um ato político. E é por isso que ir votar não é um detalhe: é um gesto urgente de defesa do Estado social. Aquele que nos pode ajudar em tempo de calamidade.