MADEIRA Meteorologia

Artigo de Opinião

DO FIM AO INFINITO

30/01/2026 08:00

Coimbra já foi Coimbra, mas agora é uma merda! O homem na rua logo atrás do herói não parava de repetir isto: Coimbra já foi Coimbra, mas agora é uma merda! Dizia-o em tom agressivo e o herói, sem nunca olhar para trás, pensou que o tipo era um toxicodependente, ou melhor, um drogado, como se dizia no tempo em que Coimbra era Coimbra. Um drogado. Um bandalho. Um vadio. Um gatuno. O outro, porém, insistia: Coimbra já foi Coimbra, mas agora é uma merda! O gajo não parava com esta conversa, avançando pela rua em direção ao rio, como se estivesse a falar com alguém.

Depois, o herói desviou-se para levantar dinheiro numa caixa multibanco e o drogado perdeu-se na multidão e a sua figura permaneceu para sempre desconhecida, mas o que ele disse ainda hoje ecoa na sua memória, pois sempre o incomodou o desprezo que as pessoas atribuem à cidade que lhes pertence, a cidade onde nasceram, a cidade onde vivem, a cidade onde o destino as assentou. É uma tristeza. É uma pobreza de espírito. É como cuspir na sopa que se come.

O herói não era natural de Coimbra, nem estudante universitário, nem antigo estudante universitário, nem tinha família na zona, não tinha qualquer ligação à cidade, nada de nada. Estava ali só para passar uns dias e arejar a cabeça e isto aconteceu no último dia, antes de seguir para Lisboa e apanhar o voo de regresso ao fim do mundo – a sua terra natal.

Almoçou à beira rio, comprou um livro numa feira, confundiu uma gaja com outra com quem tinha falado num bar na noite anterior, mas ela não o levou a mal, e tomou dois uísques sem gelo na esplanada do Café Santa Cruz.

Numa mesa perto dele, estava um velhote sozinho. Abeirou-se um amigo.

– Então, Mário! Sozinho? Quando é que arranjas uma mulher?

– Uma mulher! Tás louco! – Respondeu o velho Mário. – Uma mulher custa pelo menos 100 contos por mês!

O euro já estava em circulação há alguns anos, mas o velhote ainda fazia contas em escudos, tal como o herói já não tinha mulher, mas ainda fazia contas ao amor perdido.

Na verdade, ele andava a viajar sozinho por causa dessas malditas contas de perder no amor. Estava convencido de que quanto mais se afastasse do epicentro, viajando cada vez mais e para mais longe, a dor se tornaria também mais difusa e diluída. A certa altura, pensava ele, a dor passará a ser uma morada desconhecida num lugar exótico da minha alma, onde só poderei voltar guiando-me pelas placas toponímicas da recordação do desgosto.

Placas como esta, por exemplo: Os olhos negros mais frios que olharam para mim e o dia em que isso aconteceu. Ou: Sabes qual é a diferença entre dormir num hotel de cinco estrelas e dormir ao relento? (esta placa sinaliza a praça maior da perfídia). Ou: Quero que corra tudo bem contigo, mas se te acontecer algum mal pouco me importa.

O herói foi a pé, de mochila às costas, até à Estação Coimbra B e pensou que estava no caminho certo. Com os olhos mergulhados no abismo do chão, também pensou que ninguém será capaz de desaparecer enquanto arrastar consigo recordações. Toda a gente contém o seu passado e, enquanto assim for, ninguém será capaz de desaparecer e continuar simultaneamente vivo e livre.

Morrer é algo diferente, pensava o herói, e não é disso que se trata. Havendo passado e recordação ninguém desaparece, ninguém se liberta, nem sequer os que perdem o juízo, tenho a certeza absoluta disso, pensava ele, e, de repente, já estava na Estação Coimbra B e sentou-se à espera do comboio e do nada reparou num cinto à sua frente, ou melhor, reparou na fivela de um cinto à sua frente e aquilo fascinou-o, porque era uma flor, uma rosa em metal dourado, linda, e ele ergueu a vista, subiu pelo peito da mulher à sua frente, passou pelo pescoço, pela boca e deteve-se nos olhos azuis. Era uma mulher desconhecida, uma mulher nova, e os olhos dela persistiram nos seus, sem margem para dúvidas.

Então, inesperadamente, tal como Coimbra continuava a ser Coimbra, o herói sentiu que o ganho no amor ia começar outra vez, mesmo na hora da partida...

OPINIÃO EM DESTAQUE

88.8 RJM Rádio Jornal da Madeira RÁDIO 88.8 RJM MADEIRA

Ligue-se às Redes RJM 88.8FM

Emissão Online

Em direto

Ouvir Agora
INQUÉRITO / SONDAGEM

Qual considera ser a melhor utilização futura para o edifício do Hospital Dr. Nélio Mendonça?

Enviar Resultados

Mais Lidas

Últimas