A sociedade está a mudar e parece já não haver tempo para a contemplação, o pensamento critico, o conhecimento e os livros. Tudo se reduz a um consumo apressado e em catadupa de ideias avulsas, títulos e imagens, onde a percepção das coisas se forma instantaneamente sem amadurecimento. Na roupagem digital do capitalismo predominam os gadgets e as redes sociais, a tomar conta do dia-a-dia e a formatar as mentes e as suas agendas, bastas vezes passando ao largo do que é essencial.
A generalização do acesso permite o afago de qualquer ego e democratiza a boçalidade e a estupidez, cuja exposição é livre e desenfreada e contamina os espíritos mais vulneráveis. Mas não se culpe a tecnologia e as ferramentas virtuais, culpe-se outrossim o sistema educativo que não soube criar cidadãos livres e pensantes, intelectualmente capazes de destrinçar o trigo do joio e dotados dos meios para uma avaliação crítica das montanhas de esterco que por lá pululam. Acresce que a politiquice, e o seu clubismo que tolda a racionalidade e o bom senso, encontra ali um vasto leque de oportunidades. Como uma população intelectualmente empobrecida é sempre mais facilmente manipulável, vive-se o tempo da política espectáculo, da propaganda massiva, dos números e façanhas descontextualizados e da multiplicidade de poses estéreis para a fotografia, e até mesmo a temeridade assente no ludíbrio, na falsidade e na mistificação de factos e conjunturas.
Lateralmente diga-se que o espartilho da informação que o controlo encapotado de alguns meios de comunicação social pelas instâncias de poder suscita, pode fazer das redes sociais o seu anverso e um escape salutar de utilização de outros canais para a manifestação da liberdade e da pluralidade opinativa. Também não se procurem culpas na expressão da vontade política dos cidadãos, cuja liberdade deve ser incontornável em democracia. Culpem-se os agentes do poder político pela falta de seriedade, pelas aleivosias e interesses umbilicais que beliscam a lisura do Estado enquanto pessoa de bem e que atiram a esperança dos eleitores para soluções que cavalgam o descontentamento e o descrédito, na demagogia de tiradas facilmente assimiláveis.
Quando o Estado se perde em reformismos apressados e inconsequentes; quando se deixa aprisionar por gente medíocre carecida de afirmação e poder, ou venal; quando a politica se transforma num orgulhoso elevador social e de estatuto; quando a concretização dos princípios constitucionais segue caminhos sinuosos, como a gestão errática das urgências obstétricas, da emergência pré-hospitalar, dos tempos de espera, do número de profissionais, bem como o despontar dos novos bairros de barracas nas áreas metropolitanas, ou o direito à mobilidade insular enredado em mirabolantes esquemas regulamentares; quando o Estado se deixa mover por interesses económicos parcelares; quando paulatinamente vai proletarizando a classe média, e a lista de incoerências seria interminável, o cidadão comum propende a deixar-se enredar por qualquer canto de sereia. Esta manipulação descarada pretende escamotear, nas franjas desviantes do poder, os ganhos civilizacionais e de bem-estar que Abril veio concretizar com a profunda melhoria das condições de vida, por comparação com a negritude e as injustiças do tempo da velha senhora. Conhecidos os contextos em que historicamente se formam as autocracias e os mitos e os ódios de que se alimentam, é tempo de arvorar uma onda de competência e probidade na gestão da coisa pública e do interesse geral que solidamente desfaça os anseios de retrocesso civilizacional que grassam por aí.