Lembro-me muito bem da vez em que a Pat me pediu para comprar ganchos para pendurar dois quadros na parede do nosso quarto. Nesse dia, eu estava brutalmente cansado e ia a caminho de casa já tarde, mas ela insistiu para que passasse numa loja qualquer e eu entrei num armazém chinês...
Este é o princípio de uma crónica que ficou pendurado no vazio...
Eu sei o que quero escrever a partir deste arranque, mas sou capaz de passar anos sem qualquer avanço, como se estivesse diante de uma muralha intransponível. De certa forma, todas as crónicas que escrevi até agora – 548 – são meros princípios de longas histórias, cada uma com mil páginas, que ficaram suspensas dentro de mim, a balançar as pernas no vazio do ser, e eu estou convencido de que a minha obra literária jamais passará disto – O Livro dos Princípios.
Já agora, por falar em armazém chinês, lembrei-me de outra história que começa assim:
Quando eu era miúdo e andava na Escola da Cruz de Carvalho, a certa altura, começaram a circular vozes sobre um chinês malvado que assaltava as crianças a torto e a direito. Diziam que o gajo arrancava os brincos das raparigas à força, deixando-lhes as orelhas a sangrar, e batia nos rapazes sem dó nem piedade. Eu, porém, nunca tive medo dele, não por ser corajoso e destemido, mas simplesmente porque nunca o vi.
Acho que é um bom princípio para abordar o racismo, a xenofobia, a questão dos imigrantes e o horroroso discurso de ódio que agora polui a nossa rotina diária, mas também este ficou a baloiçar no vácuo da minha alma.
O mesmo aconteceu com este princípio, relacionado com África:
A tosse dura há mais de uma semana e dói-me as costas sempre que tusso. Penso que estou gravemente doente e quero ir embora. Não penso noutra coisa senão em ir embora. Eu bem tento escrever para passar o tempo, mas não tenho talento. Sou medíocre em tudo o que faço e nalguns casos sou mesmo bastante mau. Se conseguisse ligar o pensamento a uma máquina de escrever, provavelmente escreveria coisas brilhantes, mas não sou pessoa de inteligência artificial. Sou natural e ao natural não escrevo senão coisas reles e tontas, porcarias, e não penso noutra coisa a não ser que estou doente. Isto mete-me um medo do caraças, porque estou no meio do mato. Aqui não há médicos. Além disso, África é caótica. Confesso que montar arraial neste país foi uma tentativa desesperada que fiz para me salvar, mas acabei com tosse...
É um princípio maçador, triste, enfadonho, bem sei.
Já este é mais intenso:
Eu vivia numa Missão e, pouco a pouco, descobri que os padres tinham mulheres e filhos e vidas ocultas. Descobri que roubavam e mentiam. Que faziam negócio com o dinheiro dos benfeitores e aceitavam subornos. Que eram fingidos. Que eram falsos. Que escondiam abusos de todos os géneros. Que estavam cheios de pecado e loucura. Que eram substância de escândalo e vergonha, mas nunca os vi baixar os olhos perante a sua iniquidade e, ainda que se odiassem uns aos outros, protegiam-se mutuamente. Ou seja, eu pisava um território altamente armadilhado...
É um bom princípio, sem dúvida!
O seguinte, de outra natureza, também escapa:
O fantasma S. inaugurou, por assim dizer, a vontade do herói em desaparecer, que é uma vontade que passa pela cabeça de quase toda a gente pelo menos uma vez na vida. Desaparecer, não morrer. São coisas diferentes.
O fantasma S., tal como todos os fantasmas do amor, fez o percurso que vai da luz para a escuridão: surgiu como a salvação e atingiu o ponto da felicidade suprema, em que o ser humano adulto acredita em tudo como se fosse uma criança. Depois, num abrir e fechar de olhos, o fantasma S. mergulhou num abismo sem fim e lá do fundo emite, de tempos a tempos, ecos sinistros da sua existência passada. Às vezes, os ecos são sonhos e, hoje, o nosso herói sonhou que o fantasma S. lhe batia outra vez à porta.
– Posso entrar?
– Podes, meu amor!