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Artigo de Opinião

Vogal da Delegação Regional da Madeira da Ordem dos Psicólogos Portugueses

1/02/2026 07:35

Fevereiro chega todos os anos carregado de corações, promessas e imagens idealizadas de amor. O Dia dos Namorados, amplificado pelo marketing e pelo comércio, cria um clima emocional intenso que nos convida a comparar a nossa relação real com um ideal romântico quase cinematográfico. Surge então a pergunta silenciosa, mas frequente: porque é que não vivemos assim todos os dias? Porque é que já não sentimos o arrepio ao mínimo toque, a sensação de sermos o centro absoluto do mundo do outro, como no início?

Para muitas pessoas, esta comparação não é inofensiva. Pode gerar tristeza, sensação de fracasso e desilusão, como se algo estivesse errado consigo, com o outro ou com a relação. Dá saudades de um estado emocional vivido no passado e nasce o desejo de o sentir novamente, a qualquer custo. A indústria sabe-o bem e responde com jantares formatados, ambientes românticos em série e mensagens que reforçam a ideia de que amar é sentir sempre o mesmo fogo intenso.

A ciência psicológica e a neurologia mostram-nos, no entanto, que esta expectativa é irrealista. A paixão não foi desenhada para ser permanente. Do ponto de vista neurobiológico, a paixão é um estado transitório marcado por uma ativação intensa dos circuitos de recompensa do cérebro, com libertação elevada de dopamina, noradrenalina e feniletilamina. Estes neurotransmissores estão associados à euforia, à energia, à hiperfocalização no outro e a um pensamento marcadamente obsessivo. A pessoa amada ocupa o centro da mente, há idealização e uma certa perda de capacidade crítica.

Este estado não é permanente, tem prazo porque o cérebro adapta-se e isto chama-se habituação ou dessensibilização neuronal. Os recetores deixam de responder da mesma forma a estímulos repetidos, mesmo que sejam emocionalmente positivos. Não é falta de amor, nem falha da relação, é biologia. A mesma pessoa já não consegue, ao fim de meses ou poucos anos, desencadear o mesmo fenómeno neuroquímico inicial, porque o cérebro precisa de novidade para produzir aquela intensidade.

É aqui que surge um equívoco frequente. Algumas pessoas tornam-se dependentes deste estado de paixão e, quando diminui, concluem que a relação acabou. Procuram então uma nova relação, porque é mais fácil voltar a sentir paixão por alguém novo, do que aceitar a transformação natural da relação anterior. O problema não é o outro, nem a escolha errada, é a expectativa de permanência de um estado que, por definição, é temporário.

Importa distinguir conceitos. A atração é sobretudo física e motivacional. A paixão é intensa, fusional e marcada por obsessividade e idealização. Já o amor envolve outro padrão neurobiológico, pois com o tempo a intensidade dopaminérgica da paixão diminui e ganham relevo a oxitocina e a vasopressina, associadas à vinculação, à confiança, ao cuidado e à segurança emocional, ativadas pela proximidade, pelo toque e pela fiabilidade do outro. Psicologicamente, o amor maduro integra regulação emocional, empatia e compromisso. É menos sobre a urgência e mais sobre a escolha continuada de permanecer, cuidar e reparar. É menos vertiginoso, mas mais profundo.

A pressão atual para manter a paixão eterna, ignora esta realidade científica e cria expetativas irrealistas.

Talvez fevereiro possa ser um convite a compreender que amar não é permanecer na euforia, mas saber atravessar a dois, as mudanças naturais do sentir, cuidando da relação para que se mantenha viva, segura e saudável no tempo.

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