São os tempos de agora:
Velocidade furiosa, impaciência para textos longos, dificuldade de concentração por largo tempo, atenção a tudo pela rama.
Corre-se o risco de apanhar trechos sem contexto e tirar conclusões precipitadas, sem fundamentos.
Divulgam-se, porém, as aparências com despudor, com desleixo, sem olhar a consequências. Esfrangalham-se nomes e vidas, como se parte um ramo ou rasga uma folha inútil.
Findou a primeira volta!
Foram 11 os cidadãos admitidos a sufrágio universal para eleição dum presidente desta república, inscritos num boletim de voto onde constavam 14 nomes, o que terá causado confusão. A explicação é simples: três candidaturas não preencheram os requisitos formais de admissibilidade e, portanto, qualquer voto nesses nomes seria nulo, foi-nos explicado pela comissão nacional de eleições. Pessoalmente acho lamentável que se imprimam votos antes do escrutínio do Tribunal Constitucional sobre a elegibilidade dos candidatos e que se apresentem boletins de voto onde constem nomes que não contam. Impõe-se uma clarificação da lei, que concilie hipóteses e situações.
Mas adiante. O País votou, adesão razoável, maturidade cívica.
Dois continuam em caminhada, a ser decidida no próximo domingo.
Nove ficaram fora. Descontando algumas candidaturas a rondar a brincadeira ou a palhaçada infeliz, as demais são merecedoras duma palavra de gratidão da comunidade.
Os candidatos apresentam-se a um país, mostrando o seu currículo, a sua personalidade, a sua forma de atuar no caso de eleitos.
Para uns é o culminar dum percurso de vida, para outros serão os primeiros passos duma caminhada. Todos seguramente animados de excelentes propósitos e objectivos. Todos corajosamente a enfrentar as mais diversas atitudes e reacções.
Hoje, diariamente escrutinados pelos comentadores, que abundam nas televisões e jornais, pelas redes sociais que a generalidade dos cidadãos consome.
Atualmente, com a inovadora moda, quanto a mim perversa, das sondagens diárias, muitas vezes de duvidosa isenção e com consequências a merecerem investigação sociológica.
Na realidade, um universo forçosamente restrito de cidadãos contactados, a responder anonimamente a perguntas inócuas ou ardilosamente dirigidas a determinados resultados, pode influenciar as escolhas do eleitorado. Escolhas que acabam por não ter como razão fundamental uma análise cuidada e consciente dos candidatos e das suas propostas.
Outra inovação são os debates. Normalmente, não são esclarecedores. Parece que o objectivo é vencer. A maioria das vezes, vencer não será apresentar bem e claramente as propostas.
Vencer o debate é ser mais corrosivo, encostar o adversário às cordas, como num rinque de boxe, é denegrir, é vasculhar a privacidade, é falar mais forte e mais alto, é ter mais à-vontade e habilidade na argumentação, é confrontar posições e contradições, é desnudar passados e lançar suspeitas, fundamentadas ou não, é achincalhar, esmagar, atrapalhar, confundir.
Depois, como chacais na selva, chega a turba dos comentadores a esventrar a vítima, a cavar-lhe a sepultura e cantar-lhe as exéquias.
Sem esquecer as entrevistas, capciosas umas, aparentemente ingénuas outras, que o candidato experiente leva mais ou menos para onde quer, mas o menos habituado fica enredado nas escorregadelas que o entrevistador prepara, como se entrevistar fosse descobrir lapsos ou pôs à prova a capacidade do entrevistado se desenvencilhar das armadilhas.
A noite eleitoral é sagração ou esmagamento.
Como no circo romano se coroavam de louros os vencedores e se aviltavam ou esqueciam os vencidos, a noite eleitoral é festa ou funeral.
Os vencidos rapidamente são solitários a digerir a derrota na amargura do esquecimento.