O “Síndrome de Humpty Dumpty” é uma doença discreta, mas perigosamente comum nas sociedades em momentos de decisão. Não se manifesta por gestos extremos nem por declarações inflamadas, mas pela imobilidade confortável de quem acredita que permanecer em equilíbrio é, por si só, uma virtude. Surge quando se torna imperioso escolher entre a defesa clara de princípios e ideais ou o refúgio no pragmatismo e na falsa neutralidade.
Na sequência da primeira volta das eleições para o Presidente da República, algumas personalidades da vida política portuguesa parecem ter sido afetadas pelo “Síndrome de Humpty Dumpty”. Confrontadas com o cenário da segunda volta, optaram por permanecer em cima do muro — isto é, por uma neutralidade confortável, mas profundamente ambígua — procurando evitar escolhas difíceis num momento que as exige.
A opção por um dos candidatos na segunda volta não é um mero exercício de preferência pessoal ou de afinidade ideológica. É, sobretudo, uma escolha de campo. Como em poucos momentos da nossa história recente, impõe-se à sociedade portuguesa uma escolha entre valores e princípios: a defesa inequívoca do Estado de direito, da separação de poderes, do pluralismo e da liberdade de imprensa, ou a normalização de discursos que roçam perigosamente a rutura democrática, o enfraquecimento das instituições e a ideia de que “a vontade popular” tudo justifica.
É por isso que, na segunda volta, não se elege apenas o Presidente da República. Escolhemos permanecer sentados no muro, confiantes de que nada acontecerá, ou assumimos que a Democracia exige posição, vigilância e, por vezes, desconforto.
Tal como Humpty Dumpty, de Alice no País das Maravilhas, acreditava controlar o significado das palavras, também na política contemporânea há quem julgue poder controlar o significado da Democracia: redefinindo-a, esvaziando-a, moldando-a à conveniência do momento. Quando tudo passa a ser rotulado de “democrático”, mesmo aquilo que corrói a Democracia por dentro, o muro — a própria Democracia — começa a rachar.
A História oferece-nos exemplos claros das consequências desta atitude. Sempre que as sociedades optaram por contemporizar com discursos e ações disruptivas, os resultados foram nefastos. A política de apaziguamento que permitiu o avanço lento, mas consistente, de Hitler até ao desencadear da Segunda Guerra Mundial é um desses exemplos. Este tipo de posicionamento apresenta-se como pragmático e menos trabalhoso, mas a História ensina-nos que raramente evita a queda, limita-se a adiá-la e, muitas vezes, torna-a mais violenta.
É aqui que a memória histórica nos chama à responsabilidade. O pastor alemão Martin Niemöller, refletindo sobre o nazismo e o silêncio cúmplice que o tornou possível, escreveu: “Primeiro levaram os comunistas, e eu não disse nada... Então vieram buscar-me, e já não havia ninguém que falasse por mim.” O aviso é inequívoco: a Democracia não se perde apenas pela força, mas pela acumulação de silêncios, concessões e calculismos morais.
A Democracia não cai de repente. Cai em silêncio, enquanto muitos observam, equilibrados no muro, à espera que alguém decida por eles.
Mas, como todas as doenças que afetam o corpo político, o “Síndrome de Humpty Dumpty” tem cura. Essa cura exige consciência, memória e coragem cívica. Exige reconhecer que a Democracia não se preserva por inércia, mas por escolha ativa; que o desconforto de uma posição clara é sempre preferível à tranquilidade ilusória do muro. Curar esta doença é recusar o silêncio, rejeitar o apaziguamento e assumir que falar, votar e defender princípios não é radicalismo, é responsabilidade.