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Artigo de Opinião

DO FIM AO INFINITO

6/03/2026 08:00

De vez em quando, acordo a meio da noite e sinto todo o mal do Mundo dentro de mim, como se eu fosse o abismo da existência. É lixado sentir uma coisa assim, sobretudo nesta idade, em que já nada me surpreende ou traz esperança. Para mim, tudo o que existe é absoluto, intemporal e incessante e a minha única crença é que o Diabo há de nos levar a todos, cada um a seu tempo, uns atrás dos outros, independentemente do que somos ou deixamos de ser. O resto é conversa fiada para ajudar a passar os dias, como, por exemplo, esta crónica...

Mas, digo-vos, nem sempre pensei desta maneira e até concebi um Manual de Autoajuda, num momento muito difícil da minha vida, pois estava mesmo interessado na salvação.

Foi em 2007. Tinha acabado de perder o amor e o emprego. Vivia sozinho num T0 e embebedava-me todos os dias. Apesar de tudo, queria muito ser feliz e, então, numa noite de insónia, decidi elaborar um Manual de Autoajuda para me guiar no caminho da luz. O manual consistia em ordens e a primeira era esta:

Acordar todos os dias às 08:00 horas e começar a tratar de tudo.

Além de vago, era também um desafio enorme para quem não tinha nada para fazer e passava a noite nos copos. Sem dúvida! Depois, seguiam-se ordens como Deixar de fumar; Deixar de beber como um estúpido; Ir ao dentista; Gastar menos dinheiro em farras; Iniciar uma poupança mensal de 400 euros custe o que custar; Ir à praia faça sol ou chuva; Andar a pé; Ler mais livros (Aqui, entre parênteses, indiquei que o próximo seria ‘A mulher que ia contra as portas’, mas nunca o li, até hoje).

Outras ordens no meu Manual de Autoajuda, edição de 2007:

Encontrar a mulher da minha vida, apaixonar-me por ela e fazer com que ela se apaixone por mim; Dormir bem e ter bons sonhos; Ouvir música todos os dias, nem que seja o ruído ao meu redor; Sorrir todos os dias à Cidade e ao Mundo; Organizar uma longa viagem à volta do Mundo a partir de janeiro de 2008; Afastar os pensamentos sombrios e a tristeza a golpes de gargalhada; Acreditar sempre no poder oculto das esquinas como se as esquinas fossem Deus; Pôr-me sempre na pele do outro antes de dizer o que quer que seja sobre o outro; Não ter medo de assumir compromissos; Não adiar nada para o dia seguinte.

Sim, lembro-me perfeitamente da noite em que escrevi o Manual de Autoajuda, uma parte sentado na varanda, outra já estendido na cama:

Não ter medo de ser quem sou; Ir mais vezes ao cinema; Ir ao continente no próximo mês só para arejar a cabeça; Deixar de incomodar os amigos com queixumes; Andar na rua com a cabeça erguida e os ombros direitos; Gastar menos dinheiro em tontices; Não chorar por tudo e por nada; Não cair no hábito da solidão; Procurar emprego (Ai, o trabalho! Essa punição!); Comprar atacadores para as sapatilhas e não andar sempre com as mesmas; Acreditar que tudo se resolve; Ir à varanda todos os dias antes de sair de casa.

As ordens vinham em catadupa, pois eu procurava mesmo a salvação:

Acabar de vez com o choradinho do desgosto de amor (Já não há quem o aguente!); Escrever todos os dias pelo menos uma palavra; Ser misterioso; Ser sempre diferente e estranho; Organizar uma biblioteca particular com os livros da minha vida e ir reduzindo-a até ficar um só livro e depois nenhum; Não ficar aterrorizado perante as mesmas coisas e as mesmas pessoas; Visitar museus e exposições; Sonhar mais além; Ser sempre tranquilo e sereno; Dedicar mais tempo às tarefas domésticas e pagar as contas dentro do prazo; Não guardar nunca rancor; Não desejar nunca a vingança; Rir quando os outros começam a brigar e rir mais ainda logo a seguir; Enviar a mágoa de cada dia para Estação da Meia Serra; comprar uns calções de banho fixes.

E por aí adiante... Um caderno cheio de ordens...

Serviu para alguma coisa? Não sei. Porém, entretanto, dei uma pequena volta ao Mundo, vivi cinco anos no interior de Moçambique, conheci gente espantosa e passei por situações também espantosas. Uma parte de mim perdeu-se na viagem e uma parte da viagem permanece em mim. Pelo caminho, deixei de fumar e de beber em dose industrial. Retomei a atividade de jornalista. Casei-me com a mulher que amo.

Ainda assim, confesso, continuo a acordar de vez em quando a meio da noite e sinto todo o mal do Mundo dentro de mim, como se eu fosse o abismo da existência...

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