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Artigo de Opinião

silviamariamata@gmail.com

9/04/2023 08:00

Partiu por um caminho muito estreito que se estendia até ao pinhal. Levava a foice ao ombro e sentia-se um homem. Pena era aquele arrepio de medo ao entrar descalço na frieza sombria da floresta. Andou muito tempo sob uma luzinha preciosa da lua - ou seria das estrelas ou do sol a acordar? - seguindo com cautela o carreiro de terra junto ao ribeiro que cantava baixinho à sua mão direita! De repente, menos mal que a manhã ia crescendo sorrateira pelo caminho! Um sol quentinho, uma poeirinha de luz. Pena eram os pés frios! E o medo, que vinha sempre atrás dele a atormentá-lo, foi-se ficando para trás.

- Lá está acolá o Ti Francisco ao balcão a meter o bedelho na vida de toda a gente. Faz sempre falta um velho bilhardeiro, sem nada para fazer, para enxotar o pavor e falar com a gente, quando a gente precisa de paleio.

E o velho, que lhe achava graça, contava-lhe histórias de outros tempos também difíceis de suportar. E contava tudo esticando muito a cabeça para atremar bem o que o pequeno lhe dizia de volta, o barrete de vilão bem enfiado, tapando as orelhas. E dava-lhe conselhos segredados para que ele fosse um bom moço da fazenda na casa do seu vizinho com manias de rico.

Nessa noite, não iria a casa. Era noite de água de giro. Tinha de virar a água nos tornadouros dos regos da levada escavada a meio do poio de semilhas. Seria precisa muita força para puxar os trapos ensopados de um tornadouro para o seguinte. "Vira" seria a palavra de ordem!

Ficou a dormir no chão frio da cozinha em cima de um velho cobertor. A patroa levou a luz, a petróleo, já se sabe. O chão frio e a parede calada na escuridão trouxeram-lhe à memória as histórias de feiticeiras e de bichas-feras que andavam à noite a rapar o cabelo à pequenada. Fechou os olhos com força para dormir, mas o sono não vinha. Era a história daquele avô do passado que encontrara o diabo num cruzamento e que levara um feio enxerto de porrada. Era a história da Maria do Tanque que resondava os filhos e as bruxas vieram buscá-los por uma canela. Começou a reza, mas agora era aquela imensa e incontrolável vontade de fazer pipi. Para a rua não vou, porque tenho medo! E fez ali mesmo, num cantinho. Depois, pôs-se às apalpadelas. Ipa! Que aquilo corria que se fartava. Deitou as mãos ao ar e encontrou a toalha da mesa. Puxou devagarinho por ela com cautela e enxugou o chão como sabia. E cansado de tudo adormeceu! Quando queria dormir mais, é sempre assim, foi acordado sem cerimónia e serviu na rega como um verdadeiro moço de se lhe tirar o chapéu!

De manhã, quando a patroa leu na toalha o que tinha acontecido, chamou pelo patrão e os dois deram uma grande malha no seu moço! Vergões grossos nas canelas e nas costas! Para não fazeres outra! Ele, altivo, com dez anos, não chorou! Aguentou tudo, calado, explodindo por dentro! A alma superior não se veste de chinfrim, mas de silêncio!

Só à noite, de regresso a casa, na solidão daquele céu longe que lhe dava a mão, é que as lágrimas quentes lhe saltaram dos olhos! E ele, senhor de si, com a foice ao ombro como um homem, sonhou com um mundo mais justo e mais feliz!

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