Recentemente, temos sido fustigados por tempestades atrás de tempestades. Famílias veem os seus bens destruídos. O aeroporto fecha vezes demais. A Natureza, essa mesma que – quase - sempre nos acolheu, parece hoje revoltar-se contra nós. Quase, porque, lembra a história, de tempos a tempos, longos, volvia aluvião. E nós olhamos... e seguimos em frente.
Como se fosse normal. Podemos dizer — e dizemos muitas vezes — que somos pequenos. Que pouco podemos fazer perante gigantes como China, Índia, Estados Unidos, Rússia ou Brasil. Esquecendo, todavia, que somos parte de um Estado que é, por sua vez, de uma poderosa União económica, a Europeia. A verdade é que podemos fazer muito mais do que estamos a fazer.
Em breve, o Estado vai avançar com o sistema “Volta”, permitindo a devolução de garrafas até 3 litros com compensação financeira. É uma boa medida. Um incentivo claro. Um passo na direção certa. Mas não chega.
Portugal recicla apenas cerca de 30 a 34% dos resíduos urbanos, segundo dados da OCDE. Estamos entre o 20.º e o 23.º lugar na União Europeia. Muito abaixo da média europeia. Muito atrás de países como Alemanha, Países Baixos, Dinamarca, Itália — e até Espanha. Isto devia preocupar-nos. Muito.
Mais preocupante ainda, cerca de 88% do nosso lixo é incinerado. Apenas 10% é reciclado. O resto praticamente não existe. Sim, a incineração é melhor do que um aterro, que contamina o subsolo, incluindo lençóis freáticos. Mas continua a emitir CO2. Continua a poluir. Continua a ser um sinal de que falhámos antes — na separação, na prevenção, na educação.
E depois perguntamos: porque é que o aeroporto fecha tantas vezes? Porque é que as tempestades são mais frequentes? Porque é que tudo parece mais extremo? Talvez porque estamos a fazer de conta que nada mudou. Lembro-me bem — e muitos da minha geração também — das campanhas do João Verdinho, da Câmara Municipal do Funchal com a música:
“Eu sou o João Verdinho, amigo de toda a gente e da Natureza...” Era simples. Era eficaz. Ficava. Educava. Hoje, onde está essa mobilização? Onde está essa proximidade? Onde está essa pedagogia? Não é falta de planos. Nunca foi. É falta de transformar planos em resultados.
Precisamos de um compromisso sério com a nossa terra. Reflorestar. Proteger. Cuidar. Não obstante o que já foi feito, não podemos continuar a descarregar resíduos no mar sem o devido tratamento. Não podemos ignorar infraestruturas críticas e depois apontar o dedo quando algo falha. Cada entidade tem responsabilidades. E tem de as assumir.
Vivemos numa ilha. E isso não é apenas geografia — é destino. Já disse várias vezes: há países que podem desaparecer por causa das alterações climáticas. Tuvalu é um exemplo. Mas nós não estamos assim tão longe dessa realidade. Somos território insular e litoral. Somos vulneráveis. E se não fazemos a nossa parte, com que legitimidade exigimos aos outros que façam mais?
Há ideias no mundo que devíamos olhar com atenção. Cabo Verde, por exemplo, defende a troca de dívida por investimento climático — justiça climática. E porque não pensar nisso para a Madeira? Temos uma dívida de cerca de 5 mil milhões de euros. E se parte dessa dívida fosse convertida em investimento direto em:
• energia solar (em parques de estacionamento, não em solo agrícola);
• reflorestação;
• proteção costeira e marinha;
• sustentabilidade urbana.
Não é utopia. Países como Seychelles e Belize já o fizeram e conseguiram negociar com os credores. Precisamos de cidades que respirem — com jardins verticais, com materiais que absorvem CO2, com espaços pensados para o futuro.
Precisamos de uma taxa turística regional que financie a sustentabilidade — porque o turismo também tem impacto e deve contribuir para a solução. Precisamos de apostar seriamente na energia renovável doméstica. Precisamos de mudar a mobilidade.
E precisamos de pensar diferente. Há uma ilha ao largo da Califórnia — Santa Catalina — onde os carros são limitados. Onde a maioria das pessoas anda em carrinhos de golfe. Pode parecer radical. Mas funciona. E quando olhamos para o Porto Santo, vemos algo semelhante em escala, em população, em potencial. Porque não começar aí? Porque não transformar o Porto Santo num exemplo europeu de mobilidade sustentável? Todos querem aparecer.
Todos querem anunciar. Mas poucos querem fazer o trabalho difícil. O trabalho que não dá votos imediatos. O trabalho que garante futuro. E a pergunta mantém-se — cada vez mais urgente: Estamos à espera de quê? WTF, Words translate into facts, isto é, as palavras traduzem-se em factos, ou, como denunciava Hamlet, não passarão de words, words, words.