Durante muito tempo, o Arquipélago da Madeira foi visto como um lugar privilegiado para viver. Seguro, bonito e com qualidade de vida em comparação com outros locais do nosso país. Hoje, continua a ser tudo isso, mas cada vez menos para os próprios madeirenses.
A crise da habitação, que dominou o debate nacional, chegou com força às ilhas.
No Funchal, encontrar uma casa a preços acessíveis tornou-se uma tarefa quase impossível. Rendas de valores altíssimos por pequenos apartamentos são insuportáveis para a maioria dos salários. Comprar casa, por sua vez, é um sonho fora do alcance de muitos jovens, que se veem forçados a continuar a viver com os pais ou, em casos mais extremos, a abandonar a sua terra natal.
Mas o problema vai além da habitação. Muitos madeirenses sentem que a Madeira já não é aquele local genuinamente bonito e acessível para se viver, mas sim um território cada vez mais orientado para o turismo. Essa mudança nota-se no dia a dia: no preço das rendas, no custo dos restaurantes, nos supermercados e até em serviços básicos. Os preços, em muitos casos, ultrapassam o razoável para quem vive e trabalha na região. Aquilo que é pensado para quem visita acaba por ser imposto a quem cá vive.
Grande parte desta pressão resulta precisamente do crescimento do turismo e do investimento imobiliário externo. A Madeira tornou-se um destino internacional altamente procurado, seja por turistas, estrangeiros ou investidores. O alojamento local multiplicou-se, os empreendimentos de luxo cresceram e o preço do metro quadrado disparou. Aquilo que é visto como desenvolvimento económico tem um custo social cada vez mais evidente.
Nesta questão, o Governo defende que o investimento é essencial para o crescimento da economia e para a criação de emprego. Certo. E é verdade que o turismo é hoje o principal motor económico da região. Mas uma economia forte perde o seu sentido quando os próprios trabalhadores que a sustentam não conseguem pagar um teto e quando o custo de vida sobe acima das suas possibilidades.
É neste ponto que surge uma questão maior, que vai além da economia: a defesa da nossa terra. A Madeira não é apenas um destino turístico. É a casa de um povo, é herança de gerações, é identidade construída com sacrifício, trabalho e orgulho. Não rejeito o progresso, mas é crucial garantir que esse progresso não apaga quem somos.
Salvaguardar o nosso património exige consciência coletiva. Exige medidas que protejam o acesso à habitação para os residentes, o incentivo à construção de habitação acessível e a criação de políticas que priorizem quem vive e trabalha na região. Exige também um equilíbrio entre turismo e qualidade de vida, para que a economia sirva o povo — e não o contrário.
Mas não é apenas uma responsabilidade dos governantes. É também uma responsabilidade de todos nós. Defender o comércio local, valorizar a cultura madeirense, recusar a ideia de que devemos aceitar qualquer mudança em nome do dinheiro. Uma terra perde-se aos poucos, não quando é destruída, mas quando deixa de pertencer a quem a ama.
Corremos o risco de ver a Madeira tornar-se um luxo acessível aos de fora e um desafio para os próprios madeirenses. O futuro está em escolher um caminho onde o crescimento respeita a nossa história, protege o nosso povo e garante que a Madeira continua a ser, com orgulho, a terra dos madeirenses.
Alexandra Nepomuceno escreve à segunda-feira de 4 em 4 semanas.