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Artigo de Opinião

DO FIM AO INFINITO

20/03/2026 08:00

Há trinta e cinco anos, escrevi um poema com este título – De um lado a outro sem encontrar ilhas –, que integrou uma antologia de poesia de autores madeirenses, daquelas feitas às três pancadas, com base em fotocópias. Apesar do caráter precário da publicação, eu cá fiquei muito orgulhoso por ver o meu textozinho impresso em letra de forma. Obra publicada é sempre motivo de orgulho, sobretudo na juventude, mesmo que não valha nada.

Entretanto, perdi o rasto ao poema e até pensava que o tinha queimado, mas a minha irmã encontrou-o há dias, no decurso do seu regresso à casa do Laranjal. Vou agora apresentá-lo aqui por extenso, embora no original, como é óbvio, as frases quebram em verso, num total de cinco dísticos, em rima livre.

Dizia eu assim:

No ângulo das montanhas nasce o sol num olho africano. Um corvo negro encosta-se à Pátria portuguesa. No outro ângulo das montanhas as rosas vermelhas impedem o continente. O homem hermético na parede faz de conta que come as uvas verdes. A tinta e a pena no topo da mesa retiram perpetuamente a glória dos livros.

Cinco estrofes, cada uma com dois versos...

Mostrei o poema à Pat e ela ficou irritada, ficou furiosa. Disse que não percebia nada aquilo, que era uma sequência de palavras sem sentido. Pediu-me explicações, mas eu fiquei sem reação, fiquei entorpecido, porque, de facto, não me lembro do motivo do poema, não sei o que me levou a escrever aquilo. Então, ela disse que eu estava a gozar com o leitor e eu, que aos 23 anos me senti tão orgulhoso por ter escrito aquele poema, fiquei horrorizado com a acusação. É que – garanto-vos – eu sou incapaz de gozar com o leitor. Para mim, o leitor é sagrado. Ponto.

Na equação da escrita, o único pateta em jogo sou eu, sempre eu, apenas eu. Nunca o leitor. Por mais absurda que seja a história que narro e mesmo parecendo que o tento enganar, ludibriar, manipular, ele é constantemente inatingível, inviolável, imaculado, ainda que muitas vezes o faça ir de um lado a outro sem encontrar ilhas.

Sim, muitas vezes faço-o ir de um lado a outro sem encontrar ilhas. Ou seja, fecho os olhos e apresento-lhe uma narrativa desconjuntada, incompleta, ainda sem forma nem sentido, como, por exemplo, esta:

– O José morreu.

Foi atropelado por um Ford T ao atravessar a rua em direção à empresa onde trabalhava. O boné esvoaçou e caiu aos pés de um miúdo pelintra e o miúdo apoderou-se logo dele, pô-lo na cabeça (o boné enterrou-se-lhe até aos olhos), fungou e fugiu. Os transeuntes amontoaram-se à volta de José e viram que estava intacto, miraculosamente intacto, como se estivesse a dormir e não a morrer. Era como se tivesse decidido deitar-se no meio da rua sem mais nem menos para dormir um pouquinho. Só isso. Uma pessoa ajoelhou-se e viu uma gota de sangue a crescer-lhe na ponta do nariz. Essa gota de sangue tornou-se, pouco a pouco, mais gorda e pesada e acabou por se desprender, tendo depois atravessado o chão da rua e o núcleo da terra, os céus e os mares, indo cair inusitadamente no bordado da sua mãe, aqui, na Madeira, a milhares de quilómetros de Port of Spain.

Ela estremeceu e disse:

– O José morreu.

– Essa é boa! – Suspirou, divertido, o Kayros. – Essa é mesmo boa! Quer dizer que, cem anos mais tarde, tu é que dizias “não gosto de viver aqui”, empoleirado lá no telhado da tua casa?

– Sim! Claro que sim! – Respondi-lhe e acrescentei:

– Movia-me o fascínio da viagem e do longe...

O Kayros começou a rir, como se tivesse ouvido uma anedota.

– A verdade, meu amigo, é que aos quarenta anos de idade eu continuava suspenso na ilha, ou, para ser mais objetivo, continuava amarrado na ilha. A vida tinha-me corrido com uma normalidade atrofiante. Eu era medíocre, vago e não tinha habilitação ou talento para coisa alguma, a não ser para ir de um lado a outro sem encontrar nada.

– Estou a ver... – Disse o Kayros. – Estou a ver...

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