«Dou-vos um novo mandamento: que vos
ameis uns aos outros»João 13:34
No final da semana que agora termina, o atual Presidente dos Estados Unidos da América (POTUS, no acrónimo em inglês) decidiu que os aliados do seu país na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN/NATO) são cobardes.
Vou ao dicionário*.
Cobardia:
1. Falta de firmeza de ânimo diante do perigo, dos reveses ou dos sofrimentos. = Medo; Oposto de Coragem, Intrepidez, Ousadia
2. Ação ou atitude traiçoeira.
3. [Sentido figurado] Acanhamento, timidez.
Hesito sobre qual sentido que o POTUS teria em mente quando proferiu tamanha desfaçatez para com os seus aliados dos últimos 77 anos.
Provavelmente, a falta de coragem para entrar numa guerra sem objetivos definidos, ao arrepio do Direito Internacional, de surpresa, sem consulta ou comunicação prévias aos seus aliados. Ou traidores por não alinharem numa agressão com a qual não concordavam (e por isso não foram consultados nem informados – quem traiu quem?).
Faz-nos lembrar um amigo com mau vinho que, em discotecas, concertos, bailes ou arraiais, encontrava sempre uma maneira de arranjar uma confusão que envolvia, sempre, quem estava com ele. Até ao dia em que foi um dos amigos que lhe deu o primeiro tabefe preventivo...
Tenho para mim que a coragem é especialmente necessária para enfrentar o medo que nos tolhe perante uma oposição mais forte do que nós. Por oposição, sempre considerei cobarde a atitude de agredir quem não tem capacidade de resistência semelhante ou quem já caiu ao chão.
A coragem, nesses casos, fica do lado de quem defende os direitos humanos, o humanismo e a dignidade de cada ser humano.
Talvez por isso tenha muita dificuldade em considerar como corajosa a atitude a que assisti também ontem na Assembleia da República.
O preconceito ideológico, o ódio pela diferença e o desprezo pelo sofrimento das pessoas mais frágeis levaram, desta vez, a melhor.
O que impediu os deputados de ouvir os profissionais de saúde que trabalham, no seu dia a dia, com pessoas trans tem nomes: o obscurantismo, o medo da felicidade dos outros, a antítese da coragem.
Não confundo sequer com preconceito religioso, porque a maioria daquelas pessoas conhece mal a religião que diz professar. Por esse motivo escolhi para citação de abertura uma das declarações mais distintivas do Cristianismo: O Amor incondicional.
Ao contrário da maioria dos mandamentos anteriores, que são essencialmente negativos (não fazer algo), este é positivo, convoca-nos para a ação de nos amarmos uns aos outros, de nos respeitarmos mutuamente.
No fundo, a coragem passa por aí, por nos superarmos e pensarmos que podemos ser tão bons como quem é melhor que nós e por fazermos por isso.
Pelo contrário, achar-se que só se pode ser melhor se se apequenar quem é diferente é uma resposta medrosa, que trai os princípios que juraram defender, uma resposta cobarde, se preferirem.
No final do dia, temos de escolher: o que queremos que nos defina?
A coragem ou a cobardia?
*-”cobardia”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2026, https://dicionario.priberam.org/cobardia