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Artigo de Opinião

Economista

21/03/2026 08:00

Recentemente, ao ver uma reportagem televisiva sobre as duas manifestações do passado dia 15 de março em Budapeste, confesso que por momentos tive dificuldade em distinguir qual era a de apoio a Viktor Orbán e qual a do líder da oposição Peter Magyar. Ambas eram vastas multidões envoltas nas cores da bandeira húngara, o que é compreensível porque o 15 de março assinala a Revolução Húngara de 1848. Contudo, no contexto das próximas eleições legislativas na Hungria, agendadas para 12 de abril, esta similitude de imagem conduz a uma reflexão sobre a importância da alternância democrática para o desenvolvimento socioeconómico.

Viktor Orbán é primeiro-ministro da Hungria desde 2010, tendo implementado uma série de políticas que centralizaram o poder no seu partido, o Fidesz, e gerado tensões constantes com a União Europeia. Ao longo dos anos, consolidou o seu poder sobre a comunicação social, o sistema judicial e as instituições académicas, contribuindo para uma sistemática erosão do Estado de direito. Mais recentemente, Orbán tem-se aproximado económica e politicamente da Rússia, o que o coloca em rota de colisão com os aliados europeus.

Neste contexto, é importante sublinhar o enorme feito que é a oposição se encontrar hoje na liderança das sondagens para as próximas eleições. Oposição essa que é atualmente liderada pelo ex-Fidesz Peter Magyar, do partido conservador pró-europeu Tisza, fundado em 2024. A título de curiosidade, em húngaro “Magyar” significa literalmente “húngaro”, o que seria o equivalente a ter um “Pedro Português” a concorrer em legislativas portuguesas.

Uma análise das votações no Parlamento Europeu elaborada pela Eulytix/EPC demonstra que o alinhamento de votações do Tisza com o Fidesz é mais elevado (48,55%) do que a média dos partidos do PPE (39,9%), o que denota a necessidade de cautela em relação às elevadas expectativas que os parceiros europeus depositam numa possível vitória de Magyar, particularmente no que toca à política migratória, aos direitos civis e ao célebre Artigo 7.º do Tratado, que pode suspender os direitos de voto de um Estado-membro por violação grave dos valores europeus.

Cautela é necessária, especialmente quando se trata de movimentos de ascensão explosiva — em apenas três meses desde a sua fundação, o Tisza conseguiu quase 30% dos votos nas eleições europeias de 2024 — que rejeitam os “rótulos” de esquerda ou direita. A ideologia não é uma limitação, mas antes uma ajuda à escolha do eleitor; não nos deixemos enganar por quem argumenta o contrário. Em política, as “marcas brancas” são potenciais armadilhas futuras, pela falta de clareza nos manifestos eleitorais, que depois tem repercussões na governação.

Contudo, é inegável que a simbologia de uma derrota eleitoral do Fidesz a 12 de abril trará consequências executivas na Hungria e leituras políticas além-fronteiras. Viktor Orbán é, sem margem para dúvida, um dos modelos de referência de outros atores iliberais pela Europa fora — e também os há entre nós. Sem Orbán, esses ficariam um pouco mais órfãos, enquanto os mecanismos democráticos seriam novamente exercitados na Hungria. O verdadeiro teste ao compromisso de Peter Magyar com os princípios democráticos europeus será a sua capacidade de equilibrar as exigências de abertura democrática num Estado profundamente colonizado pelo Fidesz ao longo dos últimos 16 anos. Tal como na economia, o poder de escolha, a alternância e um nível saudável de concorrência são sempre benéficos aos consumidores-eleitores — melhores produtos, melhores políticos e melhores práticas democráticas, que depois se traduzem no desenvolvimento das sociedades.

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