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Artigo de Opinião

24/02/2026 07:30

Há quem ache que a liberdade vem com a renúncia às responsabilidades, passando-as para um poder superior que decide pelo indivíduo, libertando-o das decisões difíceis. Na religião é a diferença entre o “seja o que Deus quiser” (deixa andar que alguém vai tratar) e o “usa os teus Talentos” (responsabiliza-te e faz). Mas o poder superior a que me refiro de início não tem nada de divino ou transcendental: é apenas o conceito das decisões colectivizadas e responsabilidade nula.

Nada tenho contra jogar em equipa. Dos desportos que pratiquei, aliás, apenas um foi de equipa e parece-me ter sido aquele em que eu mais me esforçava. Este facto nada teria a ver com comportamento de rebanho, mas com a minha responsabilidade individual: se eu não me esforçasse, todos perdiam (ou seria tirado da equipa). A equipa precisava de cada um dos jogadores individuais em esforço máximo; em responsabilidade máxima. Não deixava de ser um, não deixava de ser responsável pela minha parte do sucesso, nem deixava de ter ideias próprias e de as vocalizar. Algumas não aplicava porque, por minha escolha e ao entrar para equipa, concordei em seguir as indicações do treinador. Se não as quisesse seguir, podia sempre sair da equipa.

No recente comboio de intempéries que assolou o país, exibiram-se duas atitudes diferentes. Por um lado, houve quem nem sequer tentasse fazer algo ou responsabilizar-se por resolver os graves problemas causados pelo mau tempo, acorrendo apressadamente às câmaras de televisão para acusar o governo, inclusivamente confundindo Estado com governo, de não lhes resolver de imediato todas as nefastas consequências. Pelo outro lado, houve quem (tanto indivíduos como autarcas — o Estado local) se pusesse a resolver as emergências de imediato, sem ficar à espera que o Estado central, o Leviatão, atropelasse tudo para os vir libertar da responsabilidade. Os primeiros dispunham-se a obedecer desde que lhes tirassem a responsabilidade de cima, os segundos agarraram a responsabilidade pelos cornos e fizeram o que acharam correcto, logo, sem esperar pelo dono.

Lembremo-nos sempre que, de cada vez que se exige alguma coisa ao Estado, com a excepção da exigência de maior liberdade, estamos a dar mais poder a quem quer que exerça o poder, a aumentar a pressão nos impostos e a abdicar de decisões individuais — de liberdade.

Sim, a liberdade (que é uma só e indivisível, ao contrário do que por aí se apregoa) custa. Implica responsabilidade e esforço, sim, mas abdicando dela em troca de segurança (e vida fácil), perdemos ambas, para parafrasear (abusivamente, talvez) Benjamin Franklin. Ninguém fica seguro se não for livre para dizer não a quem abusar do mandato securitário: “É para a tua segurança” raramente implica permitir a escolha individual e livre.

O rebanho, a Tribo, são bastante úteis para protecção da propriedade e oferecer segurança nos números, mas, pessoalmente, prefiro a alcateia ao rebanho. As ovelhas tendem a magoar-se com frequência porque, na ânsia de seguir o rebanho, enfiam os cascos em qualquer buraco, tropeçam em pedras e pedregulhos, caem de alturas... O lobo sabe que está melhor em alcateia, mas, se não estiver contente, também sobrevive fora dela.

Quem quer liberdade tem de aceitar responsabilidade. Quem não a quer, quem prefere segurança e pagar impostos a rodos para não ter de fazer por si, faça o favor de não fazer a renúncia, para a qual é impossível ser mandatado, da liberdade alheia.

A liberdade não é colectivizável.

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