“A morte não é nada. (...) O fio não foi cortado. (...) Eu não estou longe, apenas estou do outro lado do caminho”. Santo Agostinho
Quando revia papéis, catálogos, agendas, que foram da minha mãe, com intenção de os deitar fora, deparei-me com um pequeno bloco onde ela escrevera os contactos telefónicos dos que lhe eram mais chegados. Na letra C, lá estava o diminutivo do meu nome e, dentro de parênteses, o acréscimo (filha querida), seguido dos meus contactos. Como desfazer-me do bloco? Impossível. Guardei-o.
Depois, passei a tarde a remoer comigo própria: que sou piegas, que afinal não era mais do que um pedaço de papel. Mas aquele pedaço de papel tornou-se um laço que nos liga, tal como o seu número de telemóvel que continua no meu registo, apesar de saber que, se ligar, nunca será a sua voz a atender.
Nem a propósito, à noite, na televisão assisti a uma reportagem sobre um grupo de mulheres ucranianas, todas elas viúvas recentes, que, com os seus filhos menores, vieram passar duas semanas a Portugal. Aqui, ficaram abrigadas, longe das sirenes de alarme e do estrondo das bombas que há quatro anos lhes destroem o mundo. Passearam, partilharam as suas desditas e receberam apoio psicológico. Na hora de regressar, uma delas, questionada por uma jornalista sobre se gostaria de ficar e criar cá o seu filho, respondeu que não: precisavam de regressar à Ucrânia porque lá estava a sepultura do marido e tinham de cuidar dela. Senti-me acompanhada.
Desde sempre, foi difícil para os humanos lidar com a morte. O nada angustia-nos e, por isso, preferimos imaginar uma outra dimensão, mais ou menos etérea, onde permanecer. Não sei se ainda há quem se projete no Além, numa vida igual àquela que tem sobre a Terra, como em tempos idos sucedia, e que levava a apetrechar os túmulos com tudo que consideravam imprescindível, alguns ao ponto de ordenarem que, com o seu corpo, fossem sepultados servos, cavalos e animais de estimação, para os servir e acompanhar nessa nova vida. Felizmente, esta necessidade de preencher o desconhecido passou mais para o plano espiritual. Criou-se o Céu para os que o merecem e o Inferno para os malcomportados. Há também quem creia num eterno retorno, reencarnando em outro corpo, humano ou não, e esse corpo em que se renasce pode ser também uma recompensa ou punição, determinadas pelas boas ou más atitudes da vida anterior. Imaginem que até já se pensou que nascer mulher era castigo. Timeu, filósofo grego (sec. VII a.C.) escreveu: “Entre os que foram gerados machos, os que são cobardes e levam a vida de forma injusta, (...) renascem mulheres na segunda geração.”
Em qualquer destes credos, subjaz sempre a tentativa de manter o vínculo com os entes queridos que partem, cuja morte nos abala. Na verdade, eles permanecem connosco porque, apesar da ausência, continuamos a compor a sua presença. Eles continuam no banco em que se sentavam, nas plantas que cuidavam, na música que trauteavam, nos gestos das mãos. Sabemos o que diriam em determinada situação e conseguimos mesmo ouvir o eco das suas palavras na nossa mente. Nunca mais lhes podemos falar, mas fazemo-lo. Por vezes, até os pressentimos na borboleta que insiste em rodopiar por perto, no passarinho que demora a mirar-nos do alto do galho ou na estrela que brilha no firmamento da noite. E, se no início essa presença com que preenchemos o vazio da ausência nos faz chorar, com o passar do tempo, faz-nos sorrir. E assim se aninha em nós o conforto da saudade.