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Artigo de Opinião

silviamariamata@gmail.com

5/06/2022 07:32

Eu não ligava muito àquilo ela percebia o meu desleixo, e um dia, senhora do seu nariz, sentenciou-me de olhos bem abertos "Olha que se tu não fizeres como eu digo, quando eu morrer, eu venho de noite te atormentar e te puxar pelos pés! Atremaste bem?" "Cruzes! Credo! Eu vou fazer tudo direitinho! Fique descansada!"

Ora, um dia, quando a tia Elvira já estava mais velhinha, eu fui ver o que havia pendurado no tal cabide assim-assim dentro do vestuário! Era um fato de meia estação com a manga às três quartas de um tecido que a tia Maria José tinha mandado da Austrália! Nas roupas miúdas, incluía-se, claro, o corpete branco, como a tia Elvira dizia, que era o soutien, de marca Triumph, modelo clássico, com renda e tudo! Etecetera, etecetera… Eu fiquei a olhar para aquilo tudo e achei que aquele fato devia ter a manga comprida. Ela tinha os seus fatos mais antigos dentro do seu vestuário! Mas eu, de burra, sujeitei-me, sem ser preciso, a lhe comprar um fato mais à moda e mostrei à Tia Elvira a ver se ela aprovava! Não aprovou! Era muito escuro! "Parece fato de viúva a aliviar o luto!" Fiquei alcançada com aquela resposta e até achei que ela tinha razão! Como não tinha pensado naquilo? E de tempos a tempos lá ela me lembrava da vestimenta que queria levar no caixão e do que me fazia se eu não lhe obedecesse! Credo! Cruzes!

Várias vezes, a tia Elvira, já mais disciplinada, sob o meu comando, foi ao médico asseada com aquele fato e cramava ao "Senhor Doutor" que agora não mandava nada e que "minha sobrinha comprou-me este fato escuro, mas não era preciso, porque eu não andei forrada preto nem ando a aliviar o luto por causa "daquele cadelo de meu marido que foi para a Venezuela e nunca mais veio! Mas bem feito! O diabo já o levou e eu ainda ando por aqui!" Pois está claro!

Até que a tia Elvira bem velhinha começou a passar os dias todos no quarto, os olhos fixos no retrato da parede, as falas poucas ou nenhumas! As mãos trémulas! "Arranja o fato da tia Elvira num canto certo assim-assim para não te atrapalhares no dia da função que se sabe!" Lembraram-me. E assim foi. Nesse dia, eu estava preparada! Só achei uma consciência o corpete Triunph ir para debaixo da terra e aprontei a tia Elvira com outro mais simples. Lá foi a nossa reles e deixou saudades, a tia Elvira!... O resto é o resto, sem importância nenhuma…

A vida correu o seu ciclo. O corpete Triunph da tia Elvira foi guardado dentro de uma gaveta até eu começar, naturalmente, a usá-lo. Tudo certo e em paz! O resto não interessa…

Aqui há dias recebi um telefonema do cemitério a dizer que iam desenterrar a tia Elvira tal dia assim-assim! "Eu vou ver" - disse. E no dia marcado, vesti-me com roupa prática e velhinha, que para aquela função não era precisa finura nenhuma! Já às pressas no meu terreiro, lembrei-me: "Ai Bendito! Eu levo o corpete da tia Elvira vestido!" Ora agora! E pelo sim, pelo não, voltei atrás trocar aquela peça interior!

Não é que eu acredite nessas coisas, mas… Não teria graça nenhuma se a tia Elvira me puxasse pelos pés à beirinha da cova e se engalfinhasse por mim fora "Sua cadela do cão, tu vestes-me o rabutalho e asseias-te com o meu corpete?! Basta que sim! Eu não te disse que te ia puxar pelos pés, se não ouvisses eu falar? Anda já para dentro da cova, sua cadela, que aqui fala Elvira!"

Meu Deus! Meu Deus! Deus me livre! Com a tia Elvira não se brinca!

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