Desde a II Guerra Mundial, o sistema internacional organizou-se na convicção de que a interdependência económica, o comércio e as instituições multilaterais promoveriam convergência política e consolidação democrática. A ordem do pós-Guerra Fria assentava na cooperação sob hegemonia, tal como descrita por Robert Keohane: a potência dominante exercia primazia, mas aceitava constrangimentos institucionais que garantiam previsibilidade e estabilidade ao sistema internacional.
Esse modelo, porém, sempre conviveu com tensões latentes. O realismo recorda que a anarquia é condição permanente do sistema internacional. O otimismo liberal subestimou o nacionalismo, a lógica dos ganhos relativos e a competição entre grandes potências. Hoje, observa-se a erosão da ordem liberal e o regresso explícito da política de poder como princípio organizador do sistema.
A política externa de Donald Trump tornou essa inflexão visível, não como rutura isolada, mas como expressão de uma tendência estrutural. A instrumentalização do comércio, a redefinição de compromissos estratégicos, a pressão sobre aliados e intervenções seletivas ilustram a transição de um internacionalismo liberal para um realismo estratégico de natureza transacional. Mais do que decisões conjunturais, estas opções sinalizam a reinterpretação da hegemonia como instrumento de maximização estratégica e de ganhos relativos — dinâmica que alguns autores qualificam como “hegemonia predatória”.
Em Davos, o primeiro-ministro do Canadá assumiu idêntica posição. Evocando Tucídides e Václav Havel, alertou para o risco de “viver dentro da mentira” ao continuar a invocar uma ordem baseada em regras cuja eficácia se encontra diminuída. Defendeu, em alternativa, um “realismo baseado em valores”: salvaguarda da soberania, integridade territorial e direitos humanos combinada com pragmatismo estratégico, diversificação de alianças e reforço da autonomia. A União Europeia ensaia movimento semelhante, ainda que permaneça dependente do garante securitário norte-americano.
Neste contexto, Morgenthau e Waltz recuperam atualidade: os Estados orientam-se pela sobrevivência e pela maximização de segurança num sistema anárquico. O que se observa não é o surgir de uma nova lógica histórica, mas o enfraquecimento dos mecanismos institucionais que, durante décadas, mitigaram os efeitos mais disruptivos dessa anarquia estrutural.
A transformação em curso não é neutra do ponto de vista normativo. A securitização da política externa e a instrumentalização económica fragilizam o primado do direito internacional, tornando a democracia condicional — afirmada quando coincide com interesses estratégicos e relativizada quando se converte em obstáculo. Se a política de poder substituir definitivamente a política de regras, a democracia deixará de ser referência estruturante da ordem internacional para se tornar instrumento contingente de legitimação.
A consolidação de uma ordem assente em esferas de influência e coerção estratégica representará uma regressão da governação por regras para uma geopolítica clássica. A questão deixa de ser apenas quem lidera, passando a centrar-se na forma como o poder é exercido e nos fundamentos normativos que o sustentam.
O século XXI poderá não confirmar o “fim da história”, mas antes revelar a sua ilusão. Em vez do triunfo irreversível da democracia liberal, emerge o risco do regresso pleno da história — entendida como competição permanente num sistema em que as regras subsistem apenas enquanto servem os mais fortes. Nesse cenário, a legitimidade já não precede o poder; passa a depender dele.