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Artigo de Opinião

Antropóloga / Investigadora

23/03/2026 03:30

Há notícias que nos obrigam a uma paragem súbita. Não pela sua complexidade, mas pela sua simplicidade brutal. Refiro-me aos títulos que, recentemente, inundaram o espaço público: “Quem paga mensalidades tem refeições mais saudáveis”, “Comida diferente para ricos e para pobres na mesma cantina” ou “Mesma escola, ementas distintas”. São frases que suscitam uma perplexidade e nos confrontam com uma realidade que julgávamos ultrapassada.

O caso em apreço reporta-se a uma creche no continente, em Cascais. A instituição encontra-se no centro de uma polémica por servir refeições de qualidade diferenciada, separando os alunos em função do seu regime de frequência: de um lado, os estudantes abrangidos por contratos de associação (apoiados pelo Estado); do outro, aqueles que pagam uma mensalidade, quiçá, elevada.

Esta disparidade motivou denúncias por parte de encarregados de educação, que não hesitaram em classificar a prática como um ato de discriminação.

Enquanto mãe e cidadã, considero esta situação não apenas inadmissível, mas eticamente impensável.

A ideia de que, em pleno século XXI, possam existir diferenças na alimentação de crianças em contexto escolar não é apenas chocante, no meu ponto de vista, mas também reveladora. É difícil aceitar. E talvez mais difícil ainda compreender como chegámos aqui.

A escola — e, por maioria de razão, a creche — deveria ser um dos últimos redutos de igualdade. Um espaço onde as diferenças sociais não se manifestam, sobretudo, à mesa. Porque é aí, nos gestos mais simples, que se constrói o sentido de dignidade e de integridade.

Aliás, quando permitimos que o conteúdo do prato de uma criança seja determinado pelo valor da mensalidade paga pelos pais, estamos a falhar no ensino do valor mais fundamental de todos: a igualdade. Numa cantina escolar, o único critério aceitável deveria ser a nutrição e o bem-estar de quem se senta à mesa, sem distinções de classe ou de contrato.

A alimentação não é um privilégio. É um direito básico. E quando esse direito é fragmentado, diferenciado ou condicionado, não estamos apenas a falhar enquanto sistema. Estamos, sim, a falhar enquanto sociedade.

Mais do que uma questão administrativa ou financeira, este tipo de situação levanta uma questão ética. Que mensagem estamos a transmitir a estas crianças? Que há lugares diferentes à mesa? Que há quem mereça mais — ou menos — consoante o contexto de onde vem? Aquela ideia de que quem tem mais dinheiro no bolso merece mais que o outro?

Durante décadas, acreditámos que a escola pública — e muitas instituições privadas com função social — eram instrumentos de correção de desigualdades. Espaços onde o ponto de partida de cada criança não determinava o seu percurso imediato. No entanto, episódios como este mostram-nos que essa promessa está longe de ser plenamente cumprida.

Não se trata de apontar culpados individuais, mas de questionar estas práticas. De perceber como é possível que decisões desta natureza sejam tomadas e, mais importante, normalizadas.

Se aceitarmos que há diferenças à mesa das crianças, que outras desigualdades estaremos, silenciosamente, a tolerar?

Num tempo em que tanto se fala de inclusão, equidade e justiça social, importa lembrar que esses valores não se medem em discursos bonitos, mas em práticas concretas. E poucas coisas são mais concretas do que aquilo que se serve a uma criança.

Porque, no fim, a forma como tratamos os mais novos diz tudo muito sobre nós mesmos, sobre quem somos e sobre quem estamos dispostos a ser.

Alexandra Nepomuceno escreve à segunda-feira de 4 em 4 semanas.

OPINIÃO EM DESTAQUE
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