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Artigo de Opinião

silviamariamata@gmail.com

15/01/2023 08:00

Na nossa casa, como no outro dia havia escola, e tínhamos de nos levantar cedo, minha mãe aviava a vida sempre depressa, às parafitas, para apagar as luzes e fingir que estávamos a dormir. A malta passava por baixo da nossa casa na vereda, jogava versos a dar tanto recado e tanta piada, que meu pai se levantava e ia todo sorrisos abrir a porta da cozinha àquele mar de gente! Que folia! Houve um ano em que tiraram retratos e o jovem do bombo fartou-se de mostrá-los e de dizer a toda a gente que minha mãe estava com cara de poucos amigos! E minha mãe, sem medos, ria e dizia "Ah amigo, é verdade!"

Eu compreendo esse sentimento de cansaço dessas mulheres do antigamente que faziam os petiscos; que punham o que tinham em cima da mesa para todos se servirem; que iam buscar a loiça fresca e quieta a dentro do armário; que lavavam os copos e os pires em alguidares; que mudavam a tolha da mesa vezes sem conta; que lavavam a roupa todos os dias no poço, de joelhos; que limpavam e arrumavam a todo o momento a vida da família. Tudo, tudo, nas suas mãos!

Portanto, depois dos Reis, era um alívio voltar ao normal dos dias, ao sossego da vida. Triste era ver pela estrada abaixo, a caminho da escola, os pinheiros do Natal murchos e secos, jogados para ali para um canto a morrer; alguns nas varandas das casas com a folhagem castanha de sede à espera de um futuro igual ou pior. As verduras usadas nas lapinhas e nas jarras e jarrões tinham o mesmo destino; as searas tombadas já não serviam para nada e eram jogadas para o poio! Bem tinha razão minha mãe, que não gostava de cisqueira dentro de casa, que dá muito trabalho e "Deus Nosso Senhor não é servido dessas coisas"! Também é tudo verdade!

Neste dia em que escrevo, faz anos que uma criança, em casa ou na escola, não importa, me disse que não gostava de ter nascido em janeiro. O seu aniversário era logo depois dos Reis e não tinha graça nenhuma a sua festa. Era o tempo de arranjar coragem de acabar com o Natal; de jogar muita coisa fora; de desarmar o pinheirinho e a lapinha e de arrumar tudo dentro de caixas e caixotes e tudo ficava tão desgostoso, desconsolado e apagado! Que graça tinha?! Bom era ter nascido noutro mês! Ora! Ora!

Sim, não é mentira nenhuma, mas janeiro é o recomeço de tudo, sem pressas e sem angústias! E há provérbios e ditados populares que nos transmitem grandes lições e grandes aprendizagens no ciclo da nossa vida, em cada recomeço, em cada janeiro que passa por nós. Vali-me deles para desmistificar o desencanto que pudesse persistir naquela pequena criatura tão cheia da sua verdade e valeu a pena: "Pintainho de janeiro sobe com a mãe ao poleiro"; "Pintainho de janeiro é rijo o ano inteiro"; "Ao luar de janeiro, contas o teu dinheiro"; "Janeiro fora, cresce uma hora". Que força de vida há em janeiro, o mês mais frio do ano, mas que traz mais resistência e mais vigor aos que vingam na ninhada! E o luar de janeiro que ilumina a noite? Há lá lua tão bela e tão luminosa como a de janeiro?! Não serão os dias a galgar a noite e a trazerem mais luz e mais brilho? Que beleza há na Natureza!

Janeiro é um belo mês para se ter nascido e para recomeçar outra vez! Bom Ano Novo!

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