Foi apresentada esta sexta-feira, no Convento de Santa Clara, a edição ‘ne varietur’ de ‘Luísa Marta’, o último romance de Horácio Bento de Gouveia. A obra corresponde integralmente ao manuscrito do autor e surge no âmbito do projeto de valorização da sua produção literária, iniciado em 2023.
Editada sob a chancela da Direção Regional da Cultura, a nova publicação distingue-se por respeitar, “nem com mais palavras, nem com menos palavras”, o texto original deixado pelo escritor madeirense. O manuscrito foi temporariamente cedido pelo filho, Horácio Bento de Gouveia, que interveio na sessão, sublinhando que esta edição não é “propriamente uma segunda edição”, mas sim a versão fiel ao que o pai escreveu em 1982.
O romance articula duas dimensões narrativas: uma componente ficcional, centrada na história de uma jovem oriunda de um meio humilde do norte da ilha que procura melhorar a sua vida, e uma vertente autobiográfica, de cariz memorialista, onde o autor revisita episódios e ambientes marcantes do seu percurso pessoal. Os capítulos sucedem-se alternadamente entre estas duas linhas, num exercício formal que acentua a originalidade da obra.
Na apresentação, o secretário regional de Turismo, Ambiente e Cultura, Eduardo Jesus, destacou que o projeto nasceu de uma visita à casa do escritor, onde teve contacto com a máquina de escrever, livros e manuscritos. “Nada podia ser ignorado”, referiu, sublinhando a importância de respeitar o rigor e a minúcia que caraterizam a escrita de Horácio Bento de Gouveia.
O governante enquadrou esta edição na continuidade do trabalho iniciado com a reedição de ‘Lágrimas Correndo Mundo’, em 2023, e adiantou que está já praticamente concluída uma nova publicação, ‘Canhenhos da Ilha’, que deverá ser apresentada mais para o final do ano. A intenção, afirmou, é consolidar uma cadência regular de edições.
Eduardo Jesus considerou o autor um “vulto incontornável” da cultura madeirense, salientando que a leitura da sua obra permite conhecer uma realidade simultaneamente distante e próxima, marcada pelas condições sociais da Madeira nos primeiros três quartéis do século XX. “É uma forma de perpetuar a obra e prolongar a vida para além da vida”, afirmou, assumindo como dever da Direção Regional da Cultura apoiar projetos desta natureza.
Também o filho do escritor agradeceu o empenho institucional na reedição faseada da obra, defendendo que a opção por publicar um livro de cada vez permitirá que o autor seja lembrado ao longo dos próximos anos. Agradeceu ainda o trabalho desenvolvido na leitura e fixação do manuscrito, cuja caligrafia exigiu um esforço prolongado de transcrição.
Nascido em 1901, na freguesia de Ponta Delgada, concelho de São Vicente, Horácio Bento de Gouveia licenciou-se em Ciências Históricas e Geográficas pela Faculdade de Letras de Lisboa. Foi jornalista, ensaísta, cronista, conferencista e professor do ensino secundário, sendo reconhecido como um dos autores mais prolíficos da literatura portuguesa do século XX. A sua obra deu particular destaque aos costumes, tradições e realidades sociais da Madeira, retratando de forma crua a pobreza que marcou o meio rural insular.