Houve um tempo em que ele leu muitos livros, muitos mesmo, e vagueou sozinho pelo mundo. Viveu alguns anos assim e lutava desalmadamente para esquecer o amor perdido – o amor da sua vida. Às tantas, perdeu a conta das estações e o mais que fazia era ler e seguir viagem e deixava os livros para trás à medida que terminava a leitura ou desistia dela. Os livros ficavam onde ele se encontrava nesse momento, fosse num quarto de hotel, numa estação de transportes públicos, num restaurante, num comboio, num avião, numa casa de banho, no meio de uma rua.
É incrível, mas ainda há homens assim, vamos lá dizer românticos, homens românticos, e naquele tempo ele era um deles.
Quando tudo começou, ou seja, quando o grande amor chegou ao fim, o seu cabelo estava curto, quase rapado, e ele gostava muito de passar a mão na cabeça e sentir as pontas crespas e fazia-o em todo o lado, a toda a hora, mas a certa altura as pontas já esbarravam no tampo das mesas dos bares onde se sentava para beber e fumar e esquecer, pelo que terão passado alguns anos, talvez dois ou três, talvez mais.
Os livros faziam-no desenterrar sonhos impossíveis e ele adorava conviver com os admiráveis seres inexistentes que habitam nas palavras e ocupam materialmente o tempo, o espaço e a memória de quem os enfrenta. Por outro lado, o álcool insuflava-lhe uma espécie de coragem desajeitada no espírito, com a qual encarava o seu coração magoado e o destino sem luz. Já o tabaco ocupava o lugar dos amigos que se fazem e desfazem ao longo da vida e que, tal como o fumo dos cigarros, deixam sempre o gosto amargo da partida na boca e o cheiro azedo das despedidas na pele e na roupa.
Agora, passados tantos anos, ele espanta-se por não ter morrido naquele tempo. É que, de facto, tudo se conjugava de modo diabolicamente perfeito para o matar, da mais simples expressão da sua vontade ao castelo mais fortificado dos seus desejos, da substância mais elementar das coisas que o rodeavam à mais distante e sofisticada constelação que avistava no céu.
Contudo, não morreu.
Antes pelo contrário, seguiu sempre viagem de cabelo ao vento.
Um dia, quando estava a atravessar um país africano de sul para norte, parou numa cidadezinha, rasgada ao meio pela estrada de terra batida, e conheceu uma rapariga italiana que estava também a atravessar o país, mas de norte para sul. A italiana viajava sozinha e ele ficou feliz por conhecer uma mulher assim, vamos lá dizer romântica. Sim, ela era uma mulher romântica e a cidade era decrépita e poeirenta e eles encontraram-se no restaurante de uma pensão minimamente decente que havia lá e ficaram a conversar pela noite dentro.
Falaram de arte, de política, de viagens e livros, falaram de poder e projetos, de sonhos e ambições, falaram de jogo e dinheiro, de Deus e do Diabo, falaram de sentimentos e vertigem, falaram dos abismos e da profunda leveza da união entre as pessoas, falaram de solidão e infinito e, por fim, falaram de vida e amor e ele confessou:
– Estou aqui porque perdi o amor da minha vida.
Ela retorquiu:
– O que é o amor na vida?
Ele ficou sem palavras. Limitou-se a olhar para a italiana em silêncio e ela também ficou a olhar para ele em silêncio. Depois, sempre em silêncio, foram para um quarto de mãos dadas e fizeram amor e de manhã seguiram viagem sem dizer adeus, ela para sul, ele para norte. Nunca mais souberam um do outro.
Quantos anos terão passado? Três? Quatro? Talvez cinco, ou dez. Se calhar, já passaram vinte anos. O tempo pouco importa depois da morte do amor e ele lembra-se disso todos os dias desde que iniciou a viagem, desde que terminou a viagem, desde que retomou a viagem. Às vezes, passa a noite inteira acordado a pensar nisto e, quando o novo dia desponta, conclui que não acredita em nada, porque, apesar de todos os seus encantamentos, a existência é também um tempo vazio que decorre sobre coisa nenhuma.