Em Santana as duas quintas-feiras que antecedem a festa dos compadres são reservadas às comadres e aos compadres. Manda a tradição que no seu dia uns gozem dos outros. Não faltam as sátiras, os versos mordazes - que circulam escritos não se sabe por quem - e o enforcamento de bonecos simbolizando compadres e comadres.
A tradição cumpre-se.
Reza a história que o sítio da Achada da Cruz era um dos locais onde esta tradição era vivida com particular atenção.
É neste sítio que vive ainda um dos guardiões desta tradição única na Madeira.
José Nóbrega, conhecido por todos como José Francisquinho. A peculiaridade desta figura merece o olhar que aqui lhe dedico. Por estes dias continua a participar e a viver intensamente tudo o que gira à volta da Festa dos Compadres.
Na casa dos seus mais de 90 anos, continua a desafiar o tempo com vitalidade, lucidez e humor. Conduz o seu carro pelas estradas da freguesia com a destreza de sempre, anda pela fazenda a cuidar da terra, mantém a mente alerta e olha o mundo com curiosidade genuína.
A vida de José Francisquinho é marcada por experiências intensas e memoráveis. Vida dura em Santana na infância e adolescência e depois a experiência de muitos anos de emigrante. Em França, trabalhou na construção civil — cimento, tijolo e horários rigorosos — e depois passou a cuidar de (“trotteurs”), cavalos de corridas franceses, com tanto rigor que recebeu distinções importantes.
Uma medalha foi-lhe entregue pela “Société d’Encouragement à l’élevage du Cheval Français”, com inscrição dourada que quase sabe de cor. Outra foi entregue em mão pelo então presidente da Câmara de Paris, e mais tarde Presidente da República Jacques Chirac. “Mandaram-me chamar, fui lá e pronto. Recebi aquilo, deram-me um aperto de mão... Fosca-se, até fiquei sem saber o que dizer”, recorda, sorrindo.
O regresso a Portugal não foi tranquilo. Ao voltar depois de cinco anos, foi detido pela PIDE no Funchal por não ter passaporte. “Levaram-me lá para baixo... era para levar uma lavagem”, conta. Foi a intervenção da mulher e da cunhada, ligada a uma alta patente, que lhe permitiu escapar.
Na Achada da Cruz, José Francisquinho é guardião de tradições. A sua adega é um espaço quase sagrado, com pipas alinhadas, cada uma carregando histórias e trabalho acumulado ao longo de décadas. Ali despeja o vinho, observa o seu estado, comenta se já está “avinagrado” e trata das pipas com dedicação meticulosa — lavando-as com água a ferver e produtos especiais.
“Aquilo, se não se tira, pega-se ao próximo vinho... e depois não há quem o beba”, explica, passando o pano pelas mãos mais por hábito do que por necessidade.
E figura central na Festa dos Compadres. Foi ele quem puxou as corsas de madeira e corda nos tempos em que tudo se fazia manualmente, mantendo viva uma tradição que une vizinhos e gerações. Apesar das medalhas e reconhecimentos, mostra-as com humildade, sempre acompanhado de um sorriso satisfeito.
Aos 92 anos, José Francisquinho continua a ser exemplo de inteligência prática, vivacidade e sentido de humor. O seu dia começa com uma rotina simples e cuidada. “Primeiro papo a laranja, depois uma aguardentezinha, e em cima vai o cafezinho”, explica, mostrando uma garrafa antiga de aguardente de 50 anos.
Na adega, foi buscar os copos e tirou o vinho tratado diretamente da pipa. Enchia um copo, dava a cada um e repetia com cuidado, como quem partilha algo precioso. “Ainda se aguenta”. “Este sim, este bebe-se”, disse, quase a brindar com os olhos.
Sai de lá a pensar que há homens como certos vinhos: cuidam-se, guardam-se, envelhecem com dignidade. E mesmo quando o tempo avinagra alguma coisa, ninguém lhes tira o valor nem a riqueza que deixam.
José Francisquinho é, assim, mais do que um homem de 92 anos. É uma memória viva, um guardião de histórias e tradições, um exemplo de como se pode envelhecer com humor, sabedoria e alma.