A história do Rodrigo, de nove anos, que ligou para o 112 depois de a mãe desmaiar ao volante em Malpica do Tejo, é mais do que um episódio comovente partilhado pelo INEM. É um retrato claro do que significa capacitar uma criança. E do que pode acontecer quando essa capacitação encontra humanidade do outro lado da linha.
Para quem ainda não viu este momento nas redes sociais, o herói Rodrigo estava no carro com os irmãos mais novos. A mãe, com problemas cardíacos e um pacemaker implantado, desmaiou. Aí, inevitavelmente, o medo instalou-se. Mas não o bloqueou.
O menino ligou para o número de emergência, 112. Identificou-se. Explicou a situação. Repetiu, com voz trémula, a informação essencial: “A minha mãe tem um problema no coração”. Teve ainda o discernimento de ligar os quatro piscas, de informar a sua idade e a idade da mãe. Tudo isto, com dois irmãos mais novos no automóvel, os quais procurou tranquilamente manter uma aparente serenidade. Louvável, inspirador, tocante.
Do outro lado, um outro herói, o João, assistente do INEM, fez o que a melhor psicologia recomenda. Regulou primeiro a emoção. “Mantém a calma. Eu vou ajudar-te.” Ajudar uma criança em crise começa por esta regulação emocional. Só depois vêm as perguntas. Só depois vem a técnica.
A ciência é clara. Estudos publicados no Resuscitation Journal mostram que a orientação telefónica aumenta significativamente a probabilidade de sobrevivência em paragem cardiorrespiratória quando há intervenção precoce. Segundo a European Resuscitation Council (2021), a realização imediata de manobras por leigos pode duplicar ou triplicar a taxa de sobrevivência. E sabemos, por dados da Organização Mundial da Saúde, que a literacia em saúde está associada a melhores decisões em situações críticas e menor mortalidade evitável.
O Rodrigo, naturalmente, não deve conhecer estes números. Mas conhece algo essencial. Sabe o que é um problema de coração. Sabe o que é um pacemaker. Sabe ligar para o 112. Isto é literacia em saúde. Não é jargão técnico. É compreensão funcional. É saber agir.
Capacitar não é sobrecarregar. É preparar.
O episódio revela também a dimensão relacional da emergência. O João manteve-se sempre em chamada. Pediu ao Rodrigo que tocasse na mãe. Que verificasse se reagia. Que descrevesse o local. Validou-o. No fim, disse-lhe algo que certamente o marcará para a vida: “Amanhã podes dizer na escola que foste um herói.” Esta frase não é apenas simbólica. É estruturante. Reconhece competência. Consolida autoestima. Dá sentido à experiência.
Dias depois, o João foi à escola, com o Rodrigo. Fechou o ciclo. Transformou um momento de medo num momento de orgulho coletivo.
Como psicólogo, vejo neste episódio três claras lições. Primeira: as crianças são capazes de autorregulação quando têm modelos e orientação segura. Segunda: a literacia em saúde deve começar cedo, nas escolas e nas famílias. Terceira: profissionais treinados, empáticos e tecnicamente competentes fazem toda a diferença.
O Rodrigo não foi herói por acaso. Foi herói, de todos nós, porque sabia o que fazer. Porque alguém lhe ensinou. Porque alguém, do outro lado da linha, soube guiá-lo.
Capacitar crianças é preparar o futuro. E, neste caso e em tantos outros, é salvar vidas.