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Artigo de Opinião

silviamariamata@gmail.com

8/02/2026 08:00

Guilherme quer é que morra gente para ele ir aos funerais e depois ir beber vinho para as tascas” – conversas de minha mãe, sempre a rir, mas afogueada de trabalho e às pressas por ainda ter de aprontar o fato e a gravata preta para meu pai se apresentar decente, limpo e asseado à frente do falecido e da sua família. Com a nossa familinha, minha mãe não dizia estas coisas tontas e sofria muito com a partida das alminhas da gente. Mas eu percebo meu pai. Para além de ir prestar a última homenagem ao defunto e de fazer as nossas vezes, ia também confraternizar com amigos e conhecidos, depois da triste função, talvez falar sobre histórias do finado e trazê-lo de certa forma para a roda dos amigos. Já se sabe que os mais ausentes são os mais presentes, em certas ocasiões.

Na verdade, não era preciso mais ninguém da família ir a funerais, porque Guilherme estava lá por todos. E toda a gente sabia que quem lhe tinha arranjado a roupa tinha sido minha mãe, o que quer dizer que indiretamente, ela também lá estava a apoiar a dor da viagem do morto para o outro lado. Se fosse num dia de semana, meu pai tinha direito a pedir na Ford para dar uma fugida na hora do funeral; talvez perdesse um quarto de dia, isso já não sei afiançar; se calhasse num sábado ou num domingo, lá ia ele por aí abaixo, a pé, de São João de Latrão até ao cemitério de São Gonçalo, os sapatos de sola seca numa tlingada nas pedrinhas do caminho, pelas Pedras abaixo, Estrada da Boa Nova, Travessa do Clube do 1º de Maio, o clube que ficava na loja da casa do tio João - onde é que isso anda agora? – depois, pelo Caminho do Palheiro sempre-sempre até ao Bêco do Pasto, ao pé da venda do senhor Clemente, que Deus lhe dê o Céu, a seguir, por lá p’ra lá até ao Caminho da Igreja. Era um bom esticão. Minha mãe que tivesse paciência, pois se meu pai trabalhava tanto; se fazia as nossas vezes nestes momentos reles e precisos da vida, qual era o mal de ir conversar e desconversar um pouco com os amigos, jogar à bisca ou à milhada, beber um copo, se ele não trazia maldades nem raiva, nem violências no coração e só queria o nosso bem?

Não sei se já falei disto antes, mas vou falar. Sophia de Mello B. Andresen diz em O Cavaleiro da Dinamarca que as histórias tantas vezes repetidas e tantas vezes recontadas parecem outras e ganham sempre uma luz distinta. O que vou então contar ou recontar é sobre o enterro do tio João que foi em 1992. Foi para a família um grande desgosto, uma dor sem nome, porque, aos 82 anos, o desafortunado morreu às mãos de um ladrão, durante uma noite de Verão. Minha mãe já estava entrevada, e as minhas tias mais novas tiveram de ir reconhecer o corpo do irmão. Claro que se minha mãe não podia avançar nesta volta triste, meu pai chegou-se à frente e foi no lugar dela com as cunhadas que eram também para ele estimadas como se fossem suas irmãs. Elas à frente, ele atrás na retaguarda. E foi quando, depois de se apresentarem às autoridades, pediram às minhas tias os respetivos Bilhetes de Identidade. Nenhuma delas o tinha consigo. Meu pai não gostou nada daquilo e pôs-se ali mesmo a dar sermões. Então elas tinham sido chamadas para um lugar daqueles e iam sem documentos, como se fossem buscar bordados ao lado da Ladeira, a casa da Consulata? E se fosse para embarcarem para a América? Iam era ficar em terra para aprenderem! Elas caladas. O silêncio é de ouro e a palavra é de prata. Lá meu pai descontra-vontade teve de apresentar o seu B.I e assumir o papel que deveria ser das minhas tias. Olha lá no que isto se podia dar!

Em chegando a casa, minhas tias telefonaram-me muito chorosas e muito tristes a fazer queixas de meu pai e a contar tudo o que tinham passado, coitadas. Quando eu fui contar a minha mãe e a minha irmã, não foram precisas muitas palavras, porque elas começaram logo “a ver o filme”, tão bem nós conhecíamos o nosso paizinho.

Meu pai calado a ouvir tudo, senhor de si e da sua verdade. O silêncio também fala muito alto.

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