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Artigo de Opinião

5/02/2026 08:00

Há momentos na vida democrática em que o voto deixa de ser um gesto de entusiasmo, de esperança ou de confiança no futuro. São momentos em que pouco mais nos resta do que praticar um ato de contenção (ou até de contrição!). O horizonte dos próximos cinco anos é marcado por uma frustração inevitável, contra a qual nada há a fazer. Nestas eleições presidenciais, nunca nos foi oferecida uma verdadeira oportunidade para celebrar uma visão de futuro. Não nos foi apresentada nenhuma alternativa capaz de suscitar esperança. Não nos foi dado escolher o melhor dos mundos. A decisão que temos diante de nós é simples e trágica: determinar qual destes dois maus mundos ainda é habitável.

Álvaro Cunhal, em circunstâncias bem diferentes, e perante a escolha de dois candidatos cuja dimensão política atira para um canto a totalidade das escolhas que nos foram apresentadas, formulou com brutal clareza o que temos de fazer: “(...) engolir um sapo. Se for preciso, tapem a cara com uma mão e votem com a outra.” A frase não foi elegante, mas foi politicamente honesta e certeira. Deu nome aquilo que muitas vezes a retórica democrática tenta esconder: que há votos que não são de adesão, convicção ou esperança, mas apenas de humilde e desesperada necessidade. É a partir deste deserto de opções que decido o meu voto por António José Seguro.

Não escrevo com entusiasmo, afinidade ideológica ou ilusão reformista. Escrevo com reservas. Reservas sérias. Ao longo dos últimos cinquenta anos, o socialismo português foi, demasiadas vezes, mais parte do problema do que da solução: excessivamente centralista, pouco sensível às autonomias, preso a uma cultura política de tutela estatal, avesso às reformas, à inovação e à responsabilização. O Estado hipertrofiado, a economia estagnada, a confusão entre justiça social e imobilismo estrutural não surgiram por acaso. Têm história. E essa história é socialista e também pesa nos ombros de António José Seguro. Tal como pesa a permanente hostilidade que, por exemplo, os governos de António Costa, dedicaram à Madeira e aos Madeirenses. Não esquecemos. Não perdoamos. E nada disto desaparece pelo simples facto de o candidato ser um socialista moderado, dialogante e institucional. Também não desaparece a legítima desconfiança de quem, vindo de uma tradição social-democrata ou autonomista, sabe que o Partido Socialista raramente fez das autonomias um desígnio político consistente, tratando-as mais como concessão administrativa do que como expressão de pluralismo político e territorial.

E, no entanto...

A eleição presidencial não é um programa de governo. É escolha de um árbitro, não de um jogador. É uma decisão sobre temperamento, linguagem, relação com as instituições e com a Constituição. Vamos escolher o Chefe de Estado, o líder das Forças Armadas, o mais alto magistrado da nação. É aqui que as reservas ideológicas cedem lugar a uma avaliação mais fria. António José Seguro representa, acima de tudo, previsibilidade democrática. Respeito pelo pluralismo. Uma compreensão elementar, mas essencial, das funções e dos limites do cargo. Compreende e respeita. Não governa por choque, não vive da indignação permanente, não constrói capital político a partir da humilhação simbólica de grupos sociais nem da erosão sistemática da confiança institucional. Não entusiasma, mas não envergonha. Não se comporta como um arruaceiro, não espalha intrigas, não destila ódio, não segrega, não divide, não polariza a sociedade! No tempo da radicalização discursiva, isto não é pouco. É, aliás, o mínimo indispensável.

Não considero Ventura um fascista. Vejo-o antes como um demagogo populista, sem nada de substancial a oferecer ao país para além de um discurso vazio e repetitivo. Acredito, aliás, que se trata de um fenómeno passageiro, destinado a perder fôlego em breve. O verdadeiro problema está na normalização de um discurso extremista, que acabou por empoderar grupos genuinamente fascistas, hoje já sem pudor em assumir-se como tal, e na promoção de uma cultura de violência, segregação e polarização numa sociedade portuguesa que se manteve coesa durante quase cinquenta anos. Isso, não perdoo!

E não espero de Seguro uma reinvenção do país. Não espero um sobressalto reformista nem uma visão ousada para o desenvolvimento económico ou para a autonomia política. Espero apenas que não agrave os nossos problemas estruturais e que não contribua para a degradação do regime. Espero que seja apenas aquilo que é: um democrata! Isso conta, num contexto em que a democracia liberal parece desgastada.

Votar em António José Seguro é, para mim, um voto sem ilusões e sem aplausos. Um voto defensivo. Um voto de contenção de danos. Um voto que não apaga críticas passadas nem suspende exigências futuras. É um voto que se faz tapando parcialmente o rosto, mas mantendo a mão firme no boletim. Não porque seja o melhor. Mas porque, nas circunstâncias concretas, é o suficientemente responsável para não ser perigoso.

E, em democracia, há momentos em que isso basta.

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