A internet, em particular as redes sociais, não trouxe apenas maior proximidade entre pessoas. Trouxe também mais ruído, mais desinformação e uma perigosa facilidade de se falar/escrever sem pensar.
A rapidez com que hoje se comenta tudo, muitas vezes em clima de azia ou fervor momentâneo, levanta uma questão simples: quantas vezes não seria preferível desligar, deixar a poeira assentar e só depois falar?
Mas, a internet contaminou também a forma de estar de muitos protagonistas públicos. Perante microfones e câmaras, passou a ser mais importante tentar controlar a narrativa do que prestar esclarecimentos. Não é por acaso que proliferam os vídeos gravados, sem contraditório, sem perguntas incómodas, sem risco. O essencial é tentar passar a mensagem que convém, mesmo que não corresponda à realidade.
Vivemos numa era em que importa, sobretudo, tentar fazer crer que se domina um assunto, ainda que o conhecimento seja superficial. Quem fala mais alto, quem faz mais barulho, quem gesticula mais, tende a convencer mais pessoas. Porque vai ao encontro do que uma parte significativa do público gosta de ouvir, até porque está farto das fragilidades com que se depara no quotidiano e acabam por deixar lastro para o populismo.
O problema, para os que teimam em fazer de conta que sabem, é quando são sujeitos a explicações. Porque, invariavelmente, a aptidão para lidar com matérias mais ou menos complexas revela-se residual.
O caso do subsídio social de mobilidade aérea para os residentes nas ilhas é paradigmático. Quem tinha o dever de ser porta-voz de uma equipa que tudo fez para complicar um sistema que devia ser simples anunciou facilidades que nunca chegaram a existir.
Disseram que os residentes deixariam de adiantar o valor total das viagens. Não aconteceu. Mentira ou erro? Não se sabe, porque faltou coragem para assumir o lapso e corrigir publicamente a informação. O resultado é conhecido. Os residentes continuam a pagar tudo à partida e as agências de viagens acumulam trabalho adicional para apoiar clientes num processo mais pesado do que o prometido.
Entretanto, no Continente, milhares de pessoas afetadas pelos recentes temporais têm dado uma lição silenciosa de resistência. Nos primeiros dias, muitos sobreviveram praticamente sozinhos, sem abrigo adequado, sem água, sem luz e com escasso apoio. Mais de uma semana depois, há ainda quem não saiba como aceder às ajudas disponíveis e quem continue em alerta, com o mau tempo a persistir.
Os olhares estão centrados no Estado e no poder local, pela resposta tardia e pelas soluções que agora tentam montar. Mas também merece reflexão o silêncio de muitas grandes empresas nacionais perante a destruição. Ficaram quietas. Nada fizeram.
Em situações semelhantes, como aconteceu no 20 de fevereiro na Madeira, o setor privado regional correspondeu de imediato. As realidades são diferentes, é certo. Mas a educação cívica ou a humanidade não devia ter fronteiras geográficas. Não são transmissíveis, mas podem e devem ser cultivadas.