As eleições presidenciais de 2026 estão a decorrer num contexto político claramente diferente daquele que marcou décadas de vida democrática em Portugal. As velhas dicotomias perderam capacidade explicativa, os alinhamentos tradicionais já não garantem resultados e novas figuras, associadas a partidos fora do eixo clássico do poder, ocupam hoje um espaço que antes lhes estava vedado. O sistema político abriu-se — e isso é um dado estrutural, não um episódio passageiro.
O desempenho de João Cotrim de Figueiredo, terceiro mais votado na primeira volta, confirma essa transformação. Independentemente de concordâncias ou divergências, a sua presença reforça a ideia de que a escolha presidencial deixou de ser um duelo previsível entre blocos históricos. Há mais percursos, mais linguagens políticas e mais eleitores dispostos a romper com hábitos instalados.
Paradoxalmente, esta abertura convive com um empobrecimento do debate público. A campanha presidencial tem-se aproximado, em demasiados momentos, de um concurso de atenção: vídeos de danças, frases vazias, tentativas fúteis de viralidade que pouco dizem sobre o país ou sobre a função presidencial. As redes sociais são uma ferramenta poderosa, mas quando usadas sem inteligência política tornam-se ruído. Influenciar não é distrair, e comunicar não é infantilizar.
Este desvio ajuda a explicar fenómenos eleitorais que merecem reflexão séria. Na Madeira, a escolha maioritária por André Ventura na primeira volta não pode ser tratada com desdém nem com moralismo. Revela frustração acumulada, sentimento de afastamento do centro de decisão e uma perceção de abandono político que não nasceu agora. Ignorar estas razões é o caminho mais curto para as repetir.
A mesma lógica ajuda a compreender leituras apressadas feitas a candidaturas como a de Manuel Vieira. Muitos encararam a sua presença apenas como folclore ou provocação, sem reconhecer o seu papel crítico enquanto denúncia de um sistema político distante e autocentrado. Quando a política deixa de se levar a sério, surgem formas alternativas — nem sempre bem compreendidas — de expor as suas fragilidades. Desvalorizar esse sinal é perder uma oportunidade de reflexão coletiva.
Mas compreender não é legitimar. A Presidência da República exige muito mais do que discurso inflamado ou exploração do descontentamento. O Presidente não governa, não executa políticas nem substitui o Parlamento. A sua força reside na capacidade de unir, de garantir estabilidade institucional e de representar o país inteiro — incluindo quem não votou nele.
É por isso que estas eleições não devem ser lidas como um teste aos partidos, mas como uma escolha consciente de candidatos. Do seu percurso, da sua independência, da sua maturidade democrática e da visão que têm para Portugal num tempo de incerteza social, climática e geopolítica. O país precisa de alguém que conheça o Estado por dentro, respeite a Constituição e saiba exercer a palavra com responsabilidade e contenção.
Mais do que slogans ou performances, está em causa o futuro coletivo. O voto é um instrumento poderoso e não deve ser desperdiçado nem em protesto vazio nem em indiferença. Estas Presidenciais exigem participação, reflexão e escolha. Não um voto em branco, mas um voto consciente — por quem melhor serve o país e a democracia que queremos preservar.