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Artigo de Opinião

DO FIM AO INFINITO

6/02/2026 08:00

Numa noite de copos, algures no decurso da primeira década do século XXI, conheci uma moça chamada Esménia e ela disse-me que era uma pessoa muito deprimente – não deprimida, mas deprimente – e também disse que gostava de se chamar Ana. Se assim fosse, haveria de combinar o nome com angústia e ficaria Anagústia.

– Tão poético! – Disse ela.

Contudo, quando lhe perguntei como queria que a tratasse naquele momento, respondeu sem hesitar:

– Esménia.

Esménia falava, falava, falava e pelo meio dizia que era uma pessoa muito deprimente e depois contou que tinha uma paixão exacerbada pelas palavras.

– É por isso que estou sempre a falar – disse, explicando que andava com um caderno e uma esferográfica à mão para tomar nota das palavras, incluindo as mais feias, as mais ordinárias, as mais tristes.

Abriu a bolsa e mostrou-me o caderno e a esferográfica. Depois, disse:

– É a escrever que me revelo, não tanto a falar.

– E tu confias nas pessoas? – Perguntei, à toa.

– Não – disse ela. – A gente dá um pouquinho e elas abusam.

Esménia contou-me que antes pesava 75 quilos, mas já só tinha 55. Fora um desgosto de amor que a pusera assim tão magra e era uma maravilha olhar para aquele corpo tão bem feito. Custava acreditar que já tivesse sido gorda, mas eu aceitei que ela estava a falar a verdade.

– Podem dizer o que quiserem, mas não há nada como um desgosto de amor para pôr uma mulher magra – sustentou. – É a melhor dieta.

Naquela altura, Esménia estava sozinha e desempregada.

– O pior é a noite – confessou, explicando que, às vezes, ficava acordada até às cinco da manhã e, então, pegava no caderno e na caneta e punha-se a escrever coisas melancólicas e volta e meia assinava os textos como Anagústia.

– É que sou uma pessoa muito deprimente – insistia.

Noutras ocasiões, metia-se no carro e saía a dar uma volta de madrugada, ia ver o mar e depois tomar um copo num bar qualquer que encontrasse aberto pelo caminho, como da vez em que a conheci.

– Não passo sem o mar – disse ela. – Ninguém que me tire o mar, por favor. É por isso que gosto muito de viver na ilha. É uma ilhazinha. A minha ilhazinha. Mas, atenção, não quer dizer que não esteja aberta ao mundo – sublinhou. – Só que não consigo passar sem a minha querida ilha.

Esménia foi falando, falando, falando e relatou memórias da escola secundária, memórias da faculdade, memórias dos distúrbios alimentares, memórias dos hospitais onde esteve internada por causa dos distúrbios alimentares e do ser depressivo, memórias dos acontecimentos de todos os dias da sua vida, uma coisa incrível, torrencial, e às vezes referia-se a si na terceira pessoa – a Esménia fez isto, a Esménia fez aquilo, a Esménia vai ao cabeleireiro no sábado, a Esménia assim, a Esménia assado – e falava, falava, falava, dizendo que era Aquário e, por isso, dava-se muito bem com os nativos de Gémeos, como o pai, mas o mesmo já não acontecia em relação aos nativos de Virgem, como a mãe e a prima mais nova.

– Ah, tu és Escorpião! Olha que não são nada do que as pessoas dizem. Nada. Têm uma capacidade de argumentação muito boa – disse ela em jeito de elogio, embora eu estivesse grande parte do tempo calado, ao passo que ela falava, falava, falava.

– Eu aguento bem a solidão – desabafou. – É melhor estar sozinha do que andar por aí com gajos só por andar. Já não há homens bons e as mulheres hoje em dia ainda são piores do que eles.

– Acho que são iguais – disse eu, outra vez à toa, e acrescentei: – O problema é que não sabemos esperar pelo par certo. Depois, a solidão faz-nos cair na cama com quem aparece pela frente e as coisas acabam mal.

– É por isso que estou sozinha – disse ela. – Mas também é por isso que sou deprimente.

Esménia sorriu com imensa tristeza e rematou:

– O pior é a noite.

OPINIÃO EM DESTAQUE
Farmacêutico Especialista
4/02/2026 08:00

Somos confrontados diariamente com a realidade da vida, a sua fragilidade, com a existência de um trajeto finito temporalmente.

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