Todos crescemos com a ideia de mandar. Não sabemos bem o que vamos querer ser. Na verdade, não sabemos, sequer, o que vamos querer fazer da vida. Mas mandar faz, invariavelmente, parte dos nossos planos. Julgamos que o “ordenanço” nos realiza! Que só se está bem a cagar ordens.
Só não sabem é que isso deve ser das piores coisas de se fazer. Eu falo por mim, mas não tenho jeito nenhum para o fazer. Mando pouco. Mesmo em casa praticamente não mando nada. “Caetano, vem fazer isto”. “Já vou”, só que não vem. “Eduarda, vai fazer aquilo”. “Já vou”, só que não vai. “Sofia, faz-me... esquece. Eu já faço”, é o meu dia a dia. E já a minha avó dizia: “se queres bem feito, fá-lo tu mesmo”. Não adianta. É assim.
O problema é que há muita gente que insiste em querer mandar e não devia passar de um pau mandado. Gente que chega a cargos de decisão sem estar preparado. Gente que não chega a cargo nenhum, mas que se acha. Ou até gente que ganhou algum estatuto merecido na sua arte, mas, por algum infeliz acaso, julga que isso lhe dá autoridade.
Não vamos muito longe, com o centro do país a ir pelos ares junto com as telhas e as árvores, o governo esperava cá em baixo pelos escombros. O primeiro-ministro, mandou à frente o secretário de estado adjunto enquanto lamentava a partida dos que “não evitaram a trágica consequência de perder a vida”. A ministra da administração interna não saiu do gabinete e ao que lhe perguntavam, respondia com um elucidativo “não sei”. O da economia disponibilizou mil e poucos euros por agregado familiar fustigado pelas intempéries, mas só lá mais para a Páscoa. Sim, a ideia, para já, é desenrascarem-se com o ordenado de janeiro. Depois logo se vê. É que depois da Kristin, já veio o Leonardo e agora está a Marta. Quando chegarmos ao Pedro, se ainda sobrar alguma coisa, fazemos contas...
Nas Arábias, também há quem pareça querer mandar mais que o príncipe herdeiro. Eu explico: o nosso menino de ouro está aborrecido e em greve. Recusa-se a jogar. Em causa está, alegadamente, a política de investimentos do Fundo de Investimento Público da Arábia Saudita nos clubes de futebol. Do seu ponto de vista, o rival Al Hilal está a ser beneficiado. Feitas as contas, e desde a chegada do Ronaldo, foram gastos na sua equipa cerca de 410 milhões de euros em contratações, enquanto que nos rivais as mesmas ascendem aos 640! Ok, está bem que o Cristiano sempre deixou claro que não rumou ao Oriente por causa de dinheiro, mas sim porque o campeonato saudita era um dos melhores do mundo. E eu não duvido. Nos outros todos onde andou, ganhou tudo o que havia para ganhar. Neste ganhou apenas, e logo à chegada, a prestigiadíssima Champions Cup da Arábia. Daí para cá? Zero. Porém, concordo que não deixa de ser uma tremenda injustiça o que estão a fazer ao nosso capitão. É que o fundo tem mesmo 2 pesos e 2 medidas. Então não é que o rapaz aufere mais de 200 milhões por época e o segundo mais bem pago não chega a 70?! Porque só se revoltou agora, perguntam vocês?! Não faço ideia. Mas uma pessoa vai enchendo, enchendo, enchendo... E um dia passa-se. Passou-se!
Quem também se passou foi o Tribunal da Relação de Lisboa. Revisto o processo do homicídio no arraial do Campanário, decidiu reduzir a pena inicialmente aplicada pelo Tribunal do Funchal. De 18 anos passou para 5 anos e meio! Ainda assim, os juízes entenderam que houve excesso de legítima defesa. Diziam eles que teria bastado 1 ou 2 facadas. A 3.ª, é mortal, foi demais. Mais, a faca em causa “era um instrumento de uso comum que não apresenta uma perigosidade acima da média”. Tinha 42,5 cm de comprimento e 30,2 de lâmina. Por fim avaliaram o corpanzil de ambos. O que foi desta para melhor tinha 1,89m deitado e o que matou 1,67m. E ainda dizem que os baixinhos são fracos? Só se for o Marques Mendes...
Com isto fiquei a pensar no Ruben Aguiar. Se o outro viu a pena reduzida e daqui a dias está cá fora, o “gago” qualquer dia está lá dentro e não é um assassino. “Só” passou com o carro por cima de um tipo e não se apercebeu. Pronto. Não matou, mas moeu.