Ensinaram-nos a temer os silêncios e as sombras. Disseram-nos que eles escondem vazios e ameaças. Disseram-nos que, às vezes, eles são matéria densa que se pousa sobre as coisas e sobre o mundo, um elemento plúmbeo, pesado que impede as pessoas de avançarem.
Não sei se é (sempre) assim. Que os silêncios e as sombras não são ausência, disso não tenho dúvida. Talvez nos baste olhar para a natureza e para o silencioso vazio da terra para perceber que é lá, nessa escuridão, que germina a semente. Talvez nos baste olhar para um ventre de mulher. Ou para a obra de Lourdes Castro, onde o silêncio se vê nas sombras e nas sobras de luz.
Há silêncios que chegam de mansinho, como poeira pousando sobre móveis antigos, e outros que irrompem de súbito, brutais, deixando-nos atordoados pela falta de som. Dentro deles, tudo ganha contorno diferente: o tempo abranda e até o coração parece bater devagar, como se tivesse medo de se quebrar.
As sombras nascem desse acordo tácito entre a luz e o cansaço. Não são inimigas do dia, mas sua memória imperfeita. Alongam-se pelas paredes ao entardecer, escorrem pelos cantos dos quartos, escondem pormenores que talvez nunca tenham desejado ser vistos. Há sombras que protegem — guardiãs discretas de segredos frágeis — e há as que pesam, sentando-se sobre o peito, lembrando-nos de tudo aquilo que evitamos nomear.
Há silêncios que têm nome próprio. O silêncio depois da perda, pesado como um céu prestes a desabar. O silêncio das palavras gastas por gente que já se amou. O silêncio da madrugada, quando a cidade respira fundo e confessa, em murmúrios distantes, que também se sente só.
As sombras, por sua vez, revelam mais do que escondem. Elas denunciam a presença da luz, a sua direção, a sua intensidade. Não existiriam sem ela. Assim também o silêncio denuncia o som que o antecedeu, a conversa interrompida, o grito engolido, a canção que ficou presa na garganta. Tudo o que cala lança uma sombra longa sobre o que poderia ter sido dito.
É no silêncio que as verdades ensaiam coragem para existir, e é na sombra que os olhos descansam da tirania do excesso de luz. Entre um e outro, construímos refúgios improvisados, pequenas pausas onde é permitido não responder, não sorrir, não ser inteiro.
Talvez amadurecer seja aprender a habitar esses territórios sem urgência de fuga. Talvez sejamos feitos dessa mistura instável. Carregamos silêncios nos bolsos e sombras coladas aos pés, mesmo sob o sol mais aberto. Talvez seja exatamente aí, nesse espaço entre o que não se diz e o que não se vê por completo, que a vida encontra sua textura mais verdadeira — imperfeita, opaca, mas profundamente humana.