Durante a sessão plenária do Parlamento Europeu em Estrasburgo (França), em 21 de janeiro, discursaram o Rei Felipe VI e o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa por ocasião do 40.º aniversário das adesões de Espanha e de Portugal à UE. Foram discursos, sobretudo o do Presidente português, de abertura, numa altura em que Portugal, a Europa e o mundo vivem tempos de fechamento; Espanha e Portugal não só se abriram à UE como também abriram a UE desde a sua adesão: relembro, por exemplo, que a primeira Cimeira UE-África se realizou sob a égide da Presidência Portuguesa do Conselho no ano 2000.
Na sessão solene, mostrou-se um vídeo onde pessoas de diferentes gerações debatiam entre si o que significou, e significa, estar na União Europeia, e era como se estes dois países se tivessem estendido para o resto da Europa; contudo, a páginas tantas, uma antiga bailarina dizia que, agora, não está tão convencida sobre a coesão da Europa. Espero que a Europa — ou seja, todos nós europeus —, estejamos a escutar. A União sem coesão encolhe e desampara. O Rei espanhol acrescentou que uma das maiores ameaças é a desmemória do que foi a construção europeia: no nosso quotidiano, devemos fazer Europa no que ela tem de melhor e inclusivo pois assim iremos fazendo Portugal e Espanha como lugares em que vale a pena morar, acolher e ser acolhido. O Presidente português terminou dizendo que «desistir da Europa seria [...] desistir de uma parte própria e insubstituível de Portugal».
Como esta festa da adesão era também uma festa das línguas e do seu legado de quatro décadas após a sua adesão, a Direção-Geral da Tradução e da Linguagem Clara do mesmo Parlamento Europeu, uma das reificações do projeto multilingue que é a União Europeia, celebrou os Ecos Ibéricos na UE, em 29 de janeiro, uma festa da reunião destes dois países à sua Europa natal que longas ditaduras, e não os Pirenéus, desta haviam apartado. Foi relembrado, por exemplo, que o português e o espanhol ajudam a UE a conectar-se com 800 milhões de pessoas em todo o mundo. O Professor Marco Neves recordou-nos que a língua portuguesa cresce muito em África, o seu futuro centro de gravidade, como, aliás, já acontece relativamente à língua francesa. Por outro lado, acrescento que não serão muitas línguas que, de matriz europeia, tenham o Museu da Língua em São Paulo e um Real Gabinete de Leitura no Rio de Janeiro, sendo o Brasil um dos grandes propulsionadores da língua portuguesa. O projeto multilingue europeu deve ser protegido em tempos de nacionalismos e populismos crescentes e espero que o português e o espanhol possam estar na linha da frente deste combate. Por isso, não se pode perder de vista o contrato social que sustenta o projeto europeu e que deve ser continuamente calibrado, pois perdendo a coesão perde-se o horizonte de igualdade. Além disso, parece-me também importante recordar que, em 1986, nem Portugal nem Espanha eram vistos como uma oportunidade para a Europa, mas sim como um problema, e a adesão à UE também não era um assunto sobre o qual as elites políticas portuguesas estivessem totalmente de acordo. Penso que é importante ter isto presente quando se equacionam possíveis alargamentos e com isto ir combatendo a desmemória.
Certas zonas de Portugal foram assoladas desde o final de janeiro por sucessivas tempestades, que também chegariam a Espanha, provocando mortos — a quem, aliás, o presidente eleito na noite de domingo dedicou as suas primeiras palavras —, feridos, vários estragos materiais e fazendo com que algumas povoações ainda não tenham acesso à eletricidade. Cabe-nos a todos, enquanto comunidade, saber dar resposta a estes fenómenos que são, e serão, cada vez mais recorrentes. A dor, a impotência, o desespero e uma ajuda que tardava em chegar, era insuficiente ou não chegava, não foram bonitos de se ver, mas a solidariedade, mesmo entre pessoas de zonas afetadas, essa, sim, vai-nos salvando.
Soubemos eleger um presidente que respeita o país e quem o faz, independentemente da proveniência, e só assim poderá defender, cumprir e fazer cumprir a Constituição; desta vez a Madeira não nos, nem se, envergonhou, e São Vicente e Elvas ficaram bastante sozinhos. Quanto à diáspora, onde me incluo, ainda há um longo caminho a percorrer.
No início de fevereiro, um cidadão de 30 anos, proveniente do Bangladesh, morreu no seu primeiro dia de trabalho num estaleiro de construção civil na Madeira devido a um saco de cimento que caiu de uma grua. O Centro Cultural islâmico desta ilha relembrou, a este propósito, a necessidade de um espaço para sepultamentos islâmicos. Além da justeza da reivindicação, seria uma boa maneira de honrar a memória deste cidadão, infelizmente desaparecido, com um local onde os muçulmanos residentes na Madeira possam ser sepultados. Isto não só evitaria grandes despesas em termos de trasladação do corpo, primeiro para Portugal Continental e depois, se for o caso, para outros territórios como demonstraria que sabemos acolher, incluindo na dor, quem entre nós vive.