À hora em que escrevo estas linhas, ainda não sabemos o resultado das eleições presidenciais, e, apesar de todas as sondagens apontarem para uma vitória clara de Seguro, prefiro abster-me de comemorar neste texto a sua vitória.
Falo antes do reaparecimento da extrema direita em Portugal, que, apesar de tardia, tem tido uma ascensão galopante, em apenas 6 anos conseguiram ser a segunda força política com maior representatividade na Assembleia da República e o seu líder conseguiu ultrapassar vários candidatos à vitória nas presidenciais e chegar destacado ao segundo lugar, garantindo assim a disputa na segunda volta.
Tudo isto obriga-nos a uma profunda reflexão. Não podemos menosprezar mais de um milhão e trezentos mil portugueses que votaram em André Ventura e perceber o porquê.
Ninguém conhece as propostas de André Ventura e do seu partido, o que realmente iria fazer em caso de uma vitória eleitoral e, mesmo assim, muitos votam nele. Porque não querem saber, estão fartas de se sentirem enganadas e André Ventura o que faz melhor é protestar e ser a voz dos muitos descontentes com o sistema, com as instituições, com os partidos, apesar de ele representar e fazer parte de tudo isso. Encarna na perfeição as conversas de tasca, o deita abaixo, onde apenas vale dizer mal. Apontam o dedo a pequenos casos concretos, desprezando o muito de bom que foi conquistado nestes 50 anos de democracia, mas, cirurgicamente omitem os casos e casinhos que esse partido com apenas 6 anos já acumula no seu currículo e sem ainda ter sido poder. Criticam os “tachos” mas, em tão pouco tempo, já são exímios na promiscuidade das nomeações que esse partido acumula, onde o que vale é ser mulher deste, o primo daquele ou afilhado do outro. Estes casos, como por um golpe de ilusionismo, são rapidamente esquecidos e varridos da conversa.
É preciso refletir e perceber o descontentamento das pessoas. Não vamos lá com a memória da pobreza reinante no estado novo ou com a comparação com Salazar, pois para muitos dos atuais eleitores isso não lhes diz nada, ou porque não eram nascidos, ou porque não têm memória, ou porque simplesmente não lhes interessa e desconhecem a história.
Com o evoluir da nossa democracia, com o crescimento económico que o país sofreu, as nossas exigências foram, também, evoluindo (e bem). A pobreza hoje em dia não é a mesma de há 50 anos, já não se discute a vida nas barracas, ou o comer carne apenas em épocas de festa. A pobreza subiu de nível e muitos dos atuais pobres são-no, sem se darem conta.
Os direitos conquistados ao nível do trabalho, como por exemplo os 14 salários anuais, o mês de férias pagas, direito a desemprego, à licença de maternidade ou paternidade, são algo que não interessa e que a maioria dá por garantida. A evolução do sistema de saúde, que apesar das falhas conhecidas, são exponencialmente melhores que nos tempos de Salazar, onde nem médicos havia na maior parte do país e a esperança de vida nem chegava aos 70 anos.
Éramos na maioria pobres, muito poucos conseguiam ir jantar fora, viajar então, era algo que só em sonhos.
Evoluímos tanto e porque é que existe tanto protesto? Há uma enorme crise na habitação, a saúde está com falhas graves, a justiça falha, o custo de vida subiu muito no pós-pandemia, mas, por outro lado estamos com níveis de desemprego historicamente baixos, os níveis de escolaridade têm subido todos os anos, estamos muito próximos dos padrões europeus a este nível.
Porque estão descontentes tantos os portugueses? Porque querem (e bem), rapidamente, melhor qualidade de vida, a um ritmo acelerado para o qual o país não dá resposta.
Reflitamos e procuremos ir mais ao encontro das necessidades e desejos dos portugueses. A nossa democracia está em risco e não podemos deixar que um bando de populistas, que apenas sabe repetir uma cassete gasta, chegue ao comando dos destinos do nosso país, pois nunca serão uma solução de qualidade.