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Artigo de Opinião

Quem trabalha diariamente no território, sabe que a floresta da Madeira não é apenas um conjunto de mapas, estatísticas ou manchas verdes vistas à distância. É um sistema vivo e complexo, moldado pela natureza e pela ação humana ao longo de séculos, absolutamente decisivo para a qualidade de vida na Região — da água que bebemos à estabilidade dos solos, da biodiversidade à segurança das populações. Conhecer essa floresta em profundidade não é um luxo académico; é uma responsabilidade pública.

Foi com essa consciência que o Instituto das Florestas e Conservação da Naturezas, IP-RAM (IFCN) elaborou o 3.º Inventário Florestal da Região Autónoma da Madeira (IFRAM 3). Um trabalho exigente, rigoroso e tecnicamente inovador, que representa um verdadeiro marco na forma como lemos, compreendemos e planeamos o nosso território florestal. Não se trata de um instrumento político nem de uma imposição normativa, mas de um exercício de engenharia florestal sustentado em ciência, conhecimento acumulado e visão de longo prazo — exatamente aquilo que deve estar na base de qualquer decisão responsável.

Nesse sentido, o IFRAM 3 não encerra um processo. Pelo contrário, inaugura um novo ciclo de conhecimento contínuo, monitorização sistemática e melhoria permanente da gestão florestal. A informação agora disponibilizada permite reforçar a capacidade de planeamento, apoiar políticas públicas mais eficazes e antecipar riscos num contexto marcado pelas alterações climáticas, pela crescente pressão humana e pela necessidade de garantir a resiliência dos ecossistemas insulares. Trata-se de um instrumento ao serviço da Região, dos decisores, dos técnicos e da sociedade, cuja verdadeira relevância se medirá na sua aplicação prática no território.

A publicação do IFRAM 3 ganha ainda um significado especial pela sua proximidade com a celebração do Dia dos Vigilantes da Natureza, assinalado no passado dia 2 de fevereiro. Profissionais que conhecem a floresta não por descrição, mas por presença constante; não por relatórios, mas pelo contacto diário com o terreno. São eles, tal como a Polícia Florestal, os técnicos e os investigadores, parte essencial de uma mesma cadeia de conhecimento, vigilância e responsabilidade.

Não é por acaso que a Região Autónoma da Madeira foi pioneira, a nível nacional, na criação da Carreira Especial de Vigilante da Natureza. Essa opção refletiu, desde o início, o reconhecimento da especificidade das funções desempenhadas por estes profissionais e da importância de assegurar formação, identidade e competências próprias, ajustadas às exigências da conservação da natureza em territórios sensíveis e insulares.

É neste enquadramento que o IFCN acompanha com atenção e preocupação técnica a discussão em curso, a nível nacional, sobre a eventual fusão das carreiras de Vigilante da Natureza, Polícia Florestal e Guarda-Rios. Trata-se de um debate legítimo, mas que, do ponto de vista da gestão do território e da conservação da natureza, exige uma análise cuidada, sustentada na experiência acumulada e nos impactos reais que decisões semelhantes tiveram no passado.

A incorporação do Corpo da Polícia Florestal na Guarda Nacional Republicana (GNR), ocorrida durante os mandatos do Eng.º José Sócrates, demonstrou que a perda de especialização e a diluição de responsabilidades podem traduzir-se em fragilidades na gestão florestal. Esse exemplo constitui um alerta técnico que não pode ser ignorado quando se ponderam soluções de reorganização funcional.

Defender a valorização das carreiras de Vigilante da Natureza, da Polícia Florestal e demais carreiras especiais integradas nas competências do IFCN, torna-se coerente com a visão consagrada no IFRAM 3: uma gestão baseada em conhecimento científico, em informação rigorosa e na capacidade de transformar dados em decisões eficazes no terreno. Num contexto de desafios ambientais crescentes, a especialização, a clareza de funções e a proximidade ao território continuam a ser fatores determinantes para proteger o património natural da Madeira. Proteger a natureza da Madeira é, acima de tudo, respeitar quem a conhece, valorizando o conhecimento técnico e a experiência no terreno como base de uma gestão responsável e duradoura.

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