O antigo deputado à Assembleia Legislativa da Madeira pela Iniciativa Liberal, Nuno Morna, anunciou esta sexta-feira a sua desvinculação formal do partido, através de uma longa nota pública marcada por críticas severas à evolução interna da estrutura, que considera afastada dos princípios liberais que motivaram a sua fundação.
“Cheguei à minha paragem e saio aqui”, escreve, numa declaração onde traça um balanço do seu percurso político e das razões que o levam a abandonar o projeto que ajudou a fundar em Portugal e a implementar na Madeira.
Nuno Morna sublinha o seu papel como um dos fundadores do partido e como impulsionador do núcleo regional, descrevendo um início feito “com muito poucos” e assente no esforço de uma estrutura reduzida. “Levávamos às costas a estrutura regional, fingindo que éramos muitos quando não éramos quase ninguém”, refere, destacando o trabalho desenvolvido na comunicação e organização, muitas vezes em condições precárias.
O antigo deputado critica, contudo, o que considera ter sido uma mudança de rumo após a afirmação eleitoral do partido na região, apontando a entrada de novos elementos que, segundo afirma, não participaram na construção inicial. Sem os nomear, descreve-os como “retardatários do mérito” e acusa-os de encarar a política como “mercadoria” e “escadote pessoal”.
Na mesma nota, defende uma visão exigente da atividade política, assente em “ideias, frontalidade e lealdade”, valores que considera terem sido progressivamente substituídos por “pose”, “intriga” e “cálculo”. “O que fui vendo foi a substituição progressiva da convicção pela pose, da seriedade pela intriga miúda”, escreve.
Morna vai mais longe ao caraterizar o atual momento do partido como uma “caricatura de partido liberal”, falando numa “encenação feita de frases prontas, ambições pequenas e manobras de corredor com verniz moderno”. Por isso, afirma não se identificar com o que designa como uma “demanda pseudo-liberal”.
A decisão de saída, garante, não resulta de ressentimento ou impulso, mas de uma avaliação consciente. “Afasto-me porque a náusea também é uma forma de lucidez”, escreve, acrescentando que prefere “a solidão limpa à companhia contaminada”.
Apesar da rutura com a estrutura partidária, o antigo deputado assegura que se mantém fiel às ideias liberais. “Não mudei de ideias. Mudei apenas de recinto”, afirma, defendendo que os partidos são “instrumentos, não igrejas”, e que devem ser abandonados quando deixam de cumprir o propósito para que foram criados.
Na mensagem, deixa ainda uma palavra de agradecimento a quem o acompanhou no percurso político, manifestando a convicção de que voltará a encontrar esses interlocutores “no bom combate”.
“A partir deste momento considero-me formal e politicamente desvinculado da Iniciativa Liberal”, conclui, garantindo sair “sem ressentimento” e com “consciência tranquila”, reiterando que continuará a intervir civicamente fora de estruturas partidárias.