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Artigo de Opinião

HISTÓRIAS DA MINHA HISTÓRIA

1/03/2026 07:30

Decidi ter como mote para este texto a palavra “comer”, em algumas das suas aceções e não resisti a iniciá-lo com essa colorida expressão popular, mas não se assustem, ainda não me deixei contagiar pela violência que vai pairando pelo mundo.

Comecemos então pelo seu sentido literal. Comer, mais do que uma necessidade, tornou-se um prazer, um pretexto para socializar ou um tempero para a socialização. Para muitos, é uma arte, em que se esmeram na apresentação do pitéu, pois comer com os olhos é o primeiro apelo. Por vezes, a aparência desilude; por outras, o petisco prova ser de comer e chorar por mais e se, como também se diz, comer e coçar o mais é começar, o sucesso fica garantido. Os que comem apenas por tal ser necessário não dão grande valor a detalhes gastronómicos e são frugais à mesa, outros, porém, não resistem a um prato, seja ele de que for, e saltam de repasto em repasto, como se vivessem para comer.

Comer implica rituais que variam com a geografia e com a época. O que se come depende do que se produz e muitos períodos de carência e fartura foram vividos através da história. Tempos houve em que os pobres, condenados a comer o pão que o diabo amassou, se dirigiam em bando até aos palácios para assistir aos repastos reais, porque isso os deslumbrava e porque tinham a esperança de que algumas migalhas lhes fossem distribuídas.

Os preceitos à mesa adaptam-se às realidades locais, às invenções e até aos interesses económicos. Nos primórdios, os humanos comeriam auxiliados pelos antecessores dos atuais talheres, que não seriam mais do que um osso, uma pedra ou um pedaço de pau. Porém, ao longo dos tempos, as alfaias sobre a mesa transformar-se-iam num manancial de rendimento económico. Na transição entre os séculos XVIII e XIX, no período a que se convencionou chamar Revolução Industrial, a Inglaterra precisava de alimentar as suas crescentes indústrias. Era premente incrementar o consumo e, para tal, nada como convencer os cidadãos da absoluta necessidade de possuírem muitos bens. Por exemplo, e já que de comer falamos, tornou-se de bom-tom que cada comensal dispusesse não só de um conjunto de talheres, mas de vários e assim se distribuiu a ideia de que era imprescindível um para peixe, outro para carne, outro para a fruta, etc. As cerâmicas seguiram a mesma linha, não bastava um prato, eram necessários vários, com diversas funções e para cada parte da refeição.

O mesmo sucedeu em outras áreas de negócio e o desperdício floresceu. Os anos das duas grandes guerras impuseram alguma frugalidade, mas com a filosofia economicista que se lhes seguiu, as campanhas publicitárias recrudesceram e nós, comidos por tolos, somos levados a crer não podermos passar sem coisas de que não temos qualquer precisão. Queremos um planeta sem lixo, mas não sabemos como evitá-lo.

Há largas décadas que estudiosos alertam para as alterações climatológicas, mas o “desenvolvimento” económico impõe-se sempre. Quando ventos, chuvas, secas, fogos ou pragas nos batem à porta e estamos a comer pela medida grande, ficamos impotentes e entendemos que, perante as forças da natureza, só nos resta comer e calar. Assustados, lembramos excessos, desmandos no ordenamento territorial, a escassez dos recursos do planeta ou a insalubridade de terra, rios e mar.

Acabada a borrasca, calam-se as notícias e esquecemos agruras. Só lá muito no fundo, ficamos a ouvir o sussurro de alerta: Se não mudas, tás aqui, tás a comer outra vez pela ponta da corda.

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