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Artigo de Opinião

Bispo Emérito do Funchal

12/03/2023 08:00

Jacques Maritain morreu há 50 anos. Encontrava-me então em Roma, conhecia a grande admiração pelo grande filósofo francês, a vastidão dos seus conhecimentos tanto sob o aspeto político, como académico e eclesial. Era conhecido o significado da sua vida e o seu fim último, só e pobre, associado aos "Petits Frères", do Padre Foucauld, agora canonizado. A sua voz, a sua figura, segundo o Papa Paulo VI, também já canonizado, vão ficar na tradição do pensamento filosófico e da meditação católica. A última fase da sua vida foi passada só e pobre, escondido no silêncio dum mosteiro de eremitas, projeto que já descrevera no seu livro Humanismo Integral (Umanesimo Integrale).

Escreveu Maritain: "Está na ordem das coisas que este novo estilo e este novo impulso de espiritualidade comece a aparecer, não na vida profana, mas em certas almas escondidas do mundo, umas vivendo no mundo, as outras na sublimidade mais alta das torres da cristandade, ou seja, nas Ordens altamente contemplativas, para expandir-se de lá sobre a vida profana e temporal". Maritais conhecia a vida extraordinária daquele jovem pecador e mundano que fora Charles de Foucauld e o alto grau de espiritualidade, abnegação, pobreza e entrega aos seres mais humildes

dos habitantes de Tamanaraset no deserto da Argélia.

Maritain nascera em Paris a 18 de novembro de 1882, sofrera uma mudança radical

após ter estudado filosofia e depois ciências naturais. Deus colocou no seu caminho uma jovem judia de origem russa chamada Raissa Oumançoff, quase da sua idade, nascida em 1883, com a qual entrelaçou a sua vida. Tendo contraído matrimónio em

1904, desenhou-se nos dois uma tal inquietação ao considerar o mundo em que viviam que lhes passou pela mente a ideia de suicídio, ao considerarem a miséria humana, a infelicidade, a maldade dos homens. A posição académica da Soborne deixou-os insatisfeitos devido ao materialismo científico e impossibilidade de esperança.

Mas Deus reservava-lhes surpresas, os encontros com Charles Péguy, Henri Bergson e, principalmente, de Léon Bloy, levaram os dois esposos a um novo percurso espiritual até tomarem a decisão de se converterem ao catolicismo. Ao mesmo tempo que assistia às lições de Bergson sobre Plotino mostrando-lhes que fé e razão não se opõem na procura do Absoluto, vão iniciar encontros para pôr em diálogo a filosofia e a teologia de São Tomás de Aquino. Maritain leu a Somma Theologica de São Tomás.

Durante a Segunda Guerra Mundial Maritain e Raissa emigram para os Estados Unidos e dedicam-se a programas de rádio encorajando a resistência no pós-guerra e aceita o cargo de Embaixador da República junto da Santa Sé.

Depois reentra nos Estados Unidos, ensinando na Princeton University e na Notre Dame até à morte de Raissa.

O pensamento de Maritain exerceu forte influência na Igreja, influenciando muitos católicos, mesmo na Madeira com um dos professores de filosofia, o meu caro Pe. Joaquim da Mata, que estudou filosofia em Roma e França.

Um dos personagens mais importantes que sofreu esta influência foi o Cardeal de Milão, mais tarde Papa Paulo VI. O Cardeal Journet, francês, trocou muita correspondência com Maritain, ele influenciou nalguns documentos do Concílio Vaticano II, como nas relações entre a Igreja e o Judaísmo, a autonomia das realidades terrenas e o apostolado dos leigos.

Maritain dedicou à educação apenas um ensaio num conjunto de 60 obras, mas a sua doutrina filosófica e política teve multas edições. A função do Estado, escreve, consiste em organizar a vida da sociedade, promovendo o bem comum e garantindo a cada pessoa o direito à instrução, à liberdade e à justiça, que são as colunas da saúde de uma sociedade. Mas a soberania tem a sua raiz no povo, na lei natural e o seu fundamento em Deus, origem de toda a autoridade... Falando em sentido absoluto, a pessoa humana não pode existir. A lei natural é um sinal da voz de Deus presente em cada consciência, (confira: Os direitos do homem e a lei natural).

A democracia encontra a sua autêntica razão de ser nos valores transmitidos pelo cristianismo: igualdade de todos os homens, dignidade do trabalho, atenção prioritária aos pobres e aos marginalizados, tornando possível o anúncio do evangelho, liberdade de consciência, participação na casa comum, são os fundamentos da atual democracia.

Sem isto, a democracia, enquanto tutela da dignidade da pessoa e do bem comum, fica doente até desaparecer.

Um dos momentos mais importantes para o filósofo Maritain, aconteceu no encerramento do Concílio Vaticano II, quando o Papa Paulo VI entregou, ele próprio, a Maritain, a Mensagem que a Igreja dirigia aos homens da ciência e do pensamento, vendo nele uma figura que era capaz de unir fé cristã e reflexão intelectual. Na véspera da sua morte, o Papa São Paulo VI, recorda-o como um Mestre na arte de pensar, de viver e de orar.

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