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Artigo de Opinião

DO FIM AO INFINITO

1/12/2023 08:00

O Caires mudou-se para a Pensão Estrela, no centro da cidade, duas semanas depois do assalto à Missão. As coisas na Pensão Estrela não funcionavam lá muito bem, como era de esperar. Os problemas eram constantes e quase sempre absurdos, relacionados com a canalização e a instalação elétrica, a limpeza dos quartos e o serviço de bar e restaurante. Contudo, o Caires vivia lá como um rei.

Ele abandonou a Missão porque se enervou com o padre principal, quando este lhe disse que suspeitava que os cabecilhas do assalto tinham sido os proprietários das pensões da cidade.

– Como assim? – Perguntou o Caires.

– Eles não gostam que eu lhes faça concorrência – explicou o padre. – São meus inimigos.

– É natural que sejam! – Disse o Caires. – Isto aqui é uma Missão, um lugar para ajudar os pobres, para rezar, para evangelizar. Não é um hotel, não lhe parece? – É claro que o Caires estava a ser cínico. – Além do mais, você dispõe de bons donativos de benfeitores europeus, por isso oferece melhores condições.

O padre cofiou as longas barbas brancas e acendeu um cigarro camel com o seu isqueiro zippo. Ao mesmo tempo, inverteu o estado do olhar, que passou de brilhante a turvo. Uma noite horrível instalou-se nos seus olhos. Era uma noite ressuscitada das amarguras infantis, dos maus anos que passou no seminário, dos medos e da solidão que lá sofreu, das fantasias em que se apoiou para sobreviver. Era uma noite sem esperança.

– Nesse caso, porque não vai lá dar-lhes uma mãozinha? – Disse o padre, sonso e crispado.

– Hoje mesmo! – Respondeu o Caires.

A partir daqui, o padre passou a maldizer o Caires diante de toda a gente, insinuando que ele era um bandido, provavelmente ligado ao turismo sexual ou ao tráfico de órgãos humanos, pois aparentava ter muito dinheiro embora não lhe fosse conhecida qualquer profissão. Ao administrador do distrito, por exemplo, disse que ele tinha estado preso numa província do sul por contrabando de filmes pornográficos. Ao proprietário da maior fazenda da zona acrescentou que o Caires tinha tentado vender à Missão um camião Mercedes que fora roubado na África do Sul e usado durante alguns meses por uma rede de tráfico de pessoas, à qual ele, o Caires, estava certamente ligado. Já ao bispo disse que o Caires tinha querido violar várias empregadas da Missão, quando estas se deslocavam aos seus aposentos para proceder à limpeza. A toda a gente foi narrando falsos crimes hediondos e lançando suspeitas incríveis.

Mas o Caires pouco se importava com isso. O Caires dizia que o padre falava como um papagaio aparvalhado numa tenda de circo, ao passo que ele observava o mundo como uma águia livre do alto de um penhasco.

Eu admirava o destemor do Caires e a forma luminosa do seu discurso. Queria ser como ele, mas via-me cada vez mais preocupado e impotente, cada vez mais pequeno e insignificante, ensimesmado e perdido entre as ruínas da floresta mágica. Doía-me tanto o pescoço por causa da tensão e apetecia-me gritar. Apetecia-me chorar, estender a mão, pedir ajuda. Mas não o fazia. Nunca o fiz. Eu estava sozinho e a minha luta era toda contra mim.

À medida que o tempo corria, dia após dia, virava-me e revirava-me sobre a vontade desmedida de partir, consciente do nada que me mantinha naquele país, tão longe de casa. Será que vou aguentar? – Perguntava-me todos os dias. E se aguentar, o que ganho com isso? E então evocava uma passagem de um romance de Mia Couto, cujo título não recordo, na qual ele diz que só há duas maneiras de partir: uma é ir embora, outra é enlouquecer. Pois se não sou capaz de ir embora, devo estar a enlouquecer, dizia eu. Será?

– Há uma terceira maneira de partir – disse-me o Caires.

– Qual?

– Dominar.

Não percebi, mas também não pedi esclarecimentos.

E o Caires, pacífico, disse-me assim:

– Anda lá, bebe a cerveja e conta-me mais horrores sobre a tua querida África.

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