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Artigo de Opinião

Professora Universitária

3/03/2026 08:00

A retórica que acompanha os últimos acontecimentos mundiais sugere que o que aí vem não se trata de uma pequena troca de galhardetes limitada no tempo. A liderança israelita enfatizou a ideia de prevenção e de eliminação do que descreve como uma «ameaça existencial». O presidente Donald Trump enquadrou a operação como uma campanha com o objetivo de desmantelar as capacidades militares do Irão e, ao mesmo tempo, já que lá estamos, de incentivar os iranianos a livrarem-se por eles próprios de um governo despótico e sanguinário. Do lado iraniano, «não há linhas vermelhas» após os ataques, declarando todos os ativos americanos e israelitas na região como alvos legítimos.

É esta união de ação militar com uma retórica maximalista e ameaças diretas que demonstra o quão grave e perigosa é a crise atual. O envolvimento de vários Estados do Golfo – anfitriões (in)voluntários de infraestruturas militares estrangeiras – anuncia a rápida regionalização do conflito. A conflagração de lutas entre vários grupos armados seria catastrófica, numa zona do mundo em que os equilíbrios políticos são tão frágeis que podem entrar em colapso no caso de um conflito prolongado. A Europa apela ao diálogo, preocupada com as consequências de uma guerra quase à sua porta e com a interrupção das rotas energéticas que passam através do Estreito de Ormuz, o que ameaça a estabilidade económica global. Para os civis, a guerra traduz-se em deslocamento forçado, escassez e morte.

Esperemos que sim. Que o que leva Israel e os Estados Unidos a tocar o ninho de vespas seja a esperança genuína da queda do estado antidemocrático e violador dos direitos humanos que é o do Irão. Que não seja depois abandonar o povo à sua sorte.

Mas, há muito que o direito internacional passou a ser uma figura de estilo decorativa para quem a questão da moralidade e imoralidade está a tornar-se irrelevante nas tradições políticas populares dominantes. Governos incompetentes, estados impotentes, lideranças sem visão, políticas sem rumo, poderes judiciais fracos e meios de comunicação complacentes são o resultado da normalização do que nunca devia ser normalizado: uma política amoral e desumanizada.

Os fundamentos morais da política com base nos ideais do cuidado, justiça, lealdade e liberdade, intuitivos e essenciais aos seres humanos, são, assim, colocados em causa, porque, apesar de serem humanos, há necessidade de fundamentos coletivos que ajudem a desenvolver essas qualidades morais nos indivíduos. E é tão fácil, num mundo que se desestrutura, no meio das incertezas, dar espaço aos atores que ostentam as suas certezas: ideológicas, baseadas em sondagens, veiculadas em tom de vingança agressiva, alimentadas pelo medo. Consequentemente, há muita confusão na linguagem e no debate público em curso. E esse é o espaço em que qualquer um nos pode vender uma guerra ou um ódio como salutares, como justos.

É, no fundo, o que R. Hardin (1982) chama “tragédia dos bens comuns”: isto é, como podem ser tratados (utilizados, explorados, compensados, valorizados ou esquecidos) os bens comuns disponíveis num dado momento. São o nosso património moral e material, mas também o sentido ético e cognitivo (da disponibilidade de profissionalismo à confiança) e a qualidade do território e das suas infraestruturas.

Os bens comuns podem ser objeto e palco de uma tragédia social coletiva, quando expostos a momentos de degradação perversa por vezes violentos e rápidos. As instituições são, portanto, fracas, quando há um uso descompensado dos bens comuns, especialmente cognitivos. A síndrome depois alarga-se dos governantes aos governados e o que é contrário ao direito torna-se a nova normalidade. Numa era de desrespeito pela vida civil e pelos bens comuns a ordem é governada pela força, em vez de pelas regras. Em tempo de conflitos que se expandem, entrelaçam e perduram, em chamas, resta a nossa vontade política coletiva de não ouvir as vozes que nos atraem à tragédia, à beira do abismo, como se este fosse o melhor dos mundos.

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