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Artigo de Opinião

Subdiretor JM

24/01/2026 07:40

Há comportamentos que dispensam grandes explicações. São previsíveis. Mesmo quando envoltos em discursos bem ensaiados, acabam sempre por revelar a mesma essência, estranhamente despidos de preconceitos. Diz-se uma coisa, faz-se outra, e ninguém pode fingir-se surpreendido, desde que não esteja completamente alheado da realidade.

É isso que se verifica, por exemplo, na relação entre a Madeira e o Estado. Porque o guião repete-se com uma previsibilidade quase desconcertante.

Sejam quais forem as cores partidárias que ocupam os diferentes cargos de soberania em Lisboa, o diálogo mantém-se imutável. O que muda é apenas a forma, nunca o conteúdo. Uma conversa de surdos onde Lisboa escuta pouco e a Região fala muito, quase sempre para reclamar respostas que raramente encontram eco nas expectativas de quem procura mais, por uma questão de equidade.

É verdade que a Região veste, muitas vezes, o papel de queixosa. Mas fá-lo porque a resposta do Estado continua a ser curta, tardia ou simplesmente insuficiente. O chamado contencioso da Autonomia não é uma invenção recente nem um capricho circunstancial. É uma realidade estrutural que atravessa décadas e governos, alimentada por promessas não cumpridas e por uma incapacidade crónica de tratar a Madeira (tal como os Açores) como parte integrante do país.

Também é evidente que falta peso político a quem lidera o discurso regionalista. Falta influência, falta capacidade de impor temas. Mas importa sublinhar que, mesmo quando houve confronto direto, os ganhos foram praticamente os mesmos de agora, muito limitados. Hoje, o recuo para um conservadorismo institucional, mais contido e formal, como tantas vezes foi exigido pela oposição, também não trouxe dividendos. Mudou-se o tom, manteve-se o resultado.

O caderno reivindicativo praticamente não se alterou, governo após governo. Alteraram-se as circunstâncias, os protagonistas e os discursos, mas o essencial permanece bloqueado. E, pelo caminho, acumulam-se problemas concretos, como o que agora se verifica com o subsídio de mobilidade, transformado num novo foco de tensão e numa prova adicional de que o Estado continua a olhar para as regiões autónomas como uma parte incómoda do espaço nacional.

O mais inquietante é que este dossiê da mobilidade surge quase como uma distração conveniente, enquanto outros problemas estruturais do país, nomeadamente na área da saúde, continuam despidos de competência. A nudez do processo é, por isso, total relativamente às ilhas, porque não houve, nem há, vontade política real de corrigir desequilíbrios antigos.

Este nudismo institucional já não choca. Apenas confirma o que se sabe há muito. Na relação entre a Madeira e o Estado, nada de verdadeiramente novo ou melhor parece estar para nascer, a não ser que o Estado seja encostado à parede por todos. Veremos se, em São Bento, em meados de fevereiro, quando o tema for discutido, as paredes da Assembleia da República começarão a apertar quem tem o dever de esbater assimetrias e não de as aprofundar.

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