A Madeira aprendeu cedo que o mar é, simultaneamente, fronteira e caminho. Milhares de madeirenses partiram em busca de oportunidades que a sua terra, em diferentes momentos da história, não conseguia oferecer. Levaram consigo a sua capacidade de trabalho, coragem e a sua herança cultural.
É impossível compreender a identidade madeirense sem compreender a emigração. A nossa história coletiva está ligada aos que partiram e aos que, à distância, continuaram a construir a Região. Em vários continentes, os madeirenses criaram comunidades sólidas, preservaram tradições, mantiveram viva a língua portuguesa e transmitiram às novas gerações valores e memória. Mas também contribuíram para o nosso desenvolvimento através do envio de remessas financeiras e investindo na sua terra.
Todavia, a diáspora madeirense não é apenas passado. É presente e, sobretudo, futuro. É uma extensão viva da nossa comunidade. Onde existe um madeirense, existe também uma ponte possível com a Madeira: económica, cultural, institucional ou afetiva.
Foi com esta convicção que participei no Fórum Portugal Nação Global, realizado no Centro Cultural de Belém, em Lisboa. Tratou-se de uma iniciativa dedicada à diplomacia económica, ao investimento e à valorização das comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo. A presença da Madeira neste encontro teve um significado claro: afirmar a Região como território aberto ao mundo e consciente do valor estratégico da sua diáspora.
Durante demasiado tempo, a emigração foi vista apenas pela lente da saudade. A saudade é nobre, mas não basta. Hoje, as comunidades emigrantes devem ser reconhecidas como um ativo estratégico de enorme relevância política, económica e cultural.
Falamos de empresários que criaram riqueza nos países de acolhimento, de profissionais altamente qualificados, de jovens luso-descendentes preparados para competir globalmente, de dirigentes associativos que mantêm vivas casas da Madeira e centros comunitários, de famílias que continuam a investir na sua terra de origem. Falamos de uma rede global de talento e influência que nenhuma Região pode ignorar.
No Fórum Portugal Nação Global procurei transmitir precisamente essa mensagem: a Madeira quer trabalhar em rede com os seus emigrantes e descendentes, criando oportunidades mútuas. Queremos reforçar pontes de cooperação, atrair investimento, valorizar talento e aproximar comunidades da vida económica e institucional da Região.
A Madeira tem condições únicas para se afirmar internacionalmente. Pela sua posição atlântica, pela estabilidade política, pela qualidade de vida, pela segurança, pela capacidade empreendedora e pelo dinamismo económico, pode posicionar-se como hub de investimento, inovação e negócios entre a Europa, África e Américas. A diáspora pode ser decisiva nesse processo.
Num mundo cada vez mais competitivo, os territórios que vencem são os que sabem mobilizar redes de confiança. E ninguém representa melhor a Madeira no exterior do que quem lhe guarda ligação emocional e sentido de pertença.
Mas esta relação exige estratégia. O primeiro desafio é conquistar as novas gerações. Muitos jovens descendentes de madeirenses nasceram já fora da Região e até fora de Portugal. Têm novas referências e novas exigências. Se não criarmos canais modernos de ligação, arriscamos perder um património humano extraordinário.
Precisamos, por isso, de políticas públicas consistentes: programas de intercâmbio, estágios, plataformas digitais de contacto, promoção da língua portuguesa, valorização da cultura madeirense e apoio ao associativismo jovem. A identidade não se transmite por inércia. Cultiva-se.
O segundo desafio é económico. As comunidades madeirenses no exterior podem abrir mercados, facilitar exportações, gerar investimento, promover turismo e criar parcerias empresariais em setores estratégicos. A internacionalização da Madeira faz-se também através dos seus emigrantes.
O terceiro desafio é democrático. Os emigrantes não podem ser vistos como cidadãos distantes chamados apenas em ocasiões simbólicas. São parte integrante da nossa comunidade e devem ter mecanismos eficazes de participação e proximidade institucional.
A Madeira é pequena em território, mas grande em presença global. Poucas regiões europeias dispõem de uma diáspora tão enraizada e tão ligada às suas origens. Transformar essa realidade numa vantagem competitiva depende de visão política e capacidade de execução. E nós, no Governo liderado por Miguel Albuquerque, temo-la.
O futuro da Madeira não se constrói apenas dentro das suas fronteiras geográficas. Constrói-se também em Londres, Joanesburgo, Caracas, Toronto, Curaçau, Sydney ou Lisboa. Constrói-se onde houver um madeirense disposto a manter viva a ligação à sua terra.
A diáspora não é memória distante. É força presente. E pode ser uma das maiores alavancas do futuro da Madeira. Tal como foi no passado!