A morte já começou para ti

A tia que ficou para o fim, a última das cinco irmãs, deixou de me reconhecer há coisa de três anos. Começou de forma intermitente. Às vezes sabia quem eu era e recebia-me muito efusiva, por exemplo assim:

– Ah meu querido sobrinho, há quanto tempo não te via!

Eu ia lá todos os dias, mas ela não dava conta disso e dizia:

– Tinha tantas saudades tuas!

Outras vezes não fazia a mais pálida ideia de quem eu fosse e tratava-me com frieza e desconfiança, procurando a todo o custo enxotar-me da sua beira, a dizer coisas como:

– Isto está a ficar de noite. Não é por nada, mas o senhor que se vá embora. Vou trancar a porta e soltar os cachorros.

E assim foi até ao advento da pandemia, momento-chave a partir do qual eu passei a ser um desconhecido a tempo inteiro. Eu e toda a gente à sua volta.

A seguir a tia perdeu a noção das coisas e dos lugares, não tinha juízo para nada e vivia presa numa rotina obsessiva que a levava todos os dias de casa ao caminho, para cima e para baixo, para baixo e para cima, pé ante pé pela escadaria afora até chegar à estrada, onde se sentava na paragem dos autocarros com o seu ar alucinado que tanto perturbava os transeuntes e seguramente motivava em alguns deles sentimentos de compaixão e preocupação genuínos e noutros desencadeava conversas de escárnio e maldizer, igualmente genuínas, com julgamentos rápidos e condenações ferozes face ao aparente desleixo dos sobrinhos, como se cuidar de uma velha senil, de feitio torcido e conflituoso, fosse a coisa mais fácil e suave do mundo, numa altura em que aquilo era o seu norte e ela ainda se agarrava às coisas de unhas e dentes, louca, desatinada, por vezes violenta, sem saber para que lado estava virada, sempre a dizer:

– Eu quero ir para casa!

A suplicar:

– O senhor que me leve para casa!

A chorar:

– Por favor, leve-me para casa!

E, no entanto, ela estava em casa – a casa onde tinha nascido, a casa onde vivia há quase 90 anos. Estava em casa, mas queria ir para casa. Por isso, ninguém a conseguia arrancar do sítio, nem os vivos, nem sequer os mortos por quem ainda aguarda cheia de ansiedade – as irmãs, o pai, a mãe, os primos, o avô.

– Hão de vir hoje – dizia ela. – Vou ficar à espera e vamos todos para casa.

Só a minha irmã permaneceu mais ou menos ativa na sua memória, talvez por ir lá com regularidade dar-lhe banho e esse contacto porventura estimulava-lhe o sentido da vida, a lógica, a razão. Mas, por fim, também ela se apagou dentro da sua cabeça.

Agora, quando a vamos visitar no lar, a tia dá-nos a mão, um de cada lado, mas é óbvio que não sabe quem somos. Deve ainda sentir qualquer coisa de familiar na nossa presença, lá isso deve, nota-se que sim, qualquer coisa física, relacionada com o toque, ou com o cheiro, ou com a silhueta, mas o resto perdeu-se para sempre e isso faz com que a sua solidão seja também a nossa solidão.

Ela põe-se a falar e não diz coisa com coisa. As frases começam, mas não acabam. Perdem-se no vazio da existência, perdem-se no vazio do tempo. Ainda assim, volta e meia surpreende-nos.

Há dias olhou para mim, acariciou-me a barba e disse:

– Todo o vento… Toda a chuva…

Pura poesia.

Da última vez fixou a minha irmã e disse:

– A morte já começou para ti.

Virou-se para mim e sentenciou:

– A morte também já começou para ti.

Depois acrescentou:

– Para mim também já começou.

A seguir deu-nos a mão, um de cada lado, e concluiu:

– Vamos dar isto por terminado e vamos embora para casa.