Abraços de plástico e sinais de perigo

O abraço.

Aquele abraço entre mãe e filho, terça-feira, num lar do Funchal, é claramente a imagem da semana. Talvez do mês. Pelo simbolismo, pela emoção, pela saudade que carrega, aquele abraço não pode deixar ninguém indiferente. Nem mesmo os mais insensíveis.

A reabertura dos lares a visitantes é mais do que o reencontro de familiares. É sobretudo o sinal, mais um, do tímido regresso à normalidade possível. E o possível, para já, são visitas com distanciamento e abraços de corpos embrulhados numa espécie de preservativo humano.

Esse inestético plástico que separa os corpos é mais um dos vários adereços bizarros que passam a entrar no nosso quotidiano. Não se prevê um uso massificado como as máscaras ou as viseiras, mas é um ornamento totalmente inesperado há apenas um ano, quando desabou tudo o que tínhamos como previsível e tudo o que eram certezas.

O reencontro com os mais velhos nos lares antecede em poucos dias o regresso dos mais novos às escolas. E este fim de semana experimentamos uns convívios mais atrevidos e um consumismo ainda mais arrojado, capaz de fazer esgotar prateleiras de supermercados, reservas de restaurantes e iguarias da época, como foi o caso dos ovos de páscoa.

Esse é outro sinal. Significa que a contenção a que a sociedade se viu obrigada durante os últimos meses está prestes a explodir. Essa ameaça, sendo boa para a economia, pode também deitar tudo a perder. Basta lembrar o que aconteceu em dezembro e as consequências de janeiro.

As ‘contas de sumir’.

Entretanto, enquanto a tão ansiada retoma não chega, as empresas, essencialmente as que vivem do turismo, acumulam prejuízos. Asseguram despesas sem as correspondentes receitas e adiam projetos à espera de turistas que nunca mais chegam. São os mercados emissores com sérias reservas e a aconselhar o turismo interno e são as companhias de navios e aéreas a cancelar operações, como fez a TUI com dezenas de viagens da Alemanha para a Madeira.

Fica tudo adiado até maio. E até maio os hotéis, os restaurantes e outros serviços que vivem do turismo continuam a perder receitas preciosas e a fazer ‘contas de sumir’, iguais às que fazem desde março do ano passado.

Contas idênticas fazem os cidadãos e as entidades públicas regionais que de alguma forma sofreram efeitos do mau tempo do fim de semana passado. Mais do que os raios e os sustos, mais do que a chuva intensa, ficam alguns danos por reparar e a necessidade de ajudas públicas que derivam das políticas sociais, tão em voga na Madeira e no resto do País.

E os sorrisos de plástico.

O que se dispensa dessas políticas sociais é o benefício político que delas fazem muitos agentes do poder. As ajudas são muitas vezes essenciais para garantir um mínimo de dignidade a qualquer projeto de vida. Mas fazer da ajuda pública, com dinheiro dos contribuintes, um palco de promoção político-partidária constitui aproveitamento atroz, por vezes cruel, da mendicidade alheia.

A esse nível, convém recordar aos senhores que têm poder – qualquer tipo de poder – que uma coisa são os anúncios públicos das medidas que tomaram e as contas públicas que devem prestar. Outra coisa, bem distinta, são poses a exibir sorrisos de plástico com uma inaceitável sobranceria sobre o indigente que, tantas vezes sem saber, estende a mão para a fotografia.