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Artigo de Opinião

28/05/2022 08:01

O Estado Novo usou esta falácia como exaltação propagandística de uma forma de ser português, fazendo crer que, ao contrário de outras paragens, em Portugal tudo se passaria sem violência, conflitos ou perturbações. E se é certo que Portugal é um país em geral pacífico, tolerante e acolhedor, não é menos verdade que durante a governação do Botas essa forma de estar também se ficava a dever ao esmagamento que o regime fazia a qualquer dissensão ou oposição; ao analfabetismo e à miséria generalizados e à falta de consciência social e reivindicativa. E o país convivia brandamente com a prisão, tortura e assassinato de opositores; com a violência sexual contra menores; com a subalternização da mulher no plano pessoal, familiar e social, a violência conjugal abafada onde não se metia a colher, etc.

A história contemporânea não demonstra de todo a brandura de costumes do povo português, com episódios de grande violência e instabilidade. Desde logo, o regicídio em 1908; o assassinato do Presidente da República em 1918 e todos os tumultos e os atentados bombistas da primeira república; a chamada revolução nacional de 28 de Maio de 1926, cujas peripécias conduziriam à Constituição de 1933 e ao Estado Novo e às suas acções não menos violentas e mais recentemente os atentados e a violência bombista do pós-25 de Abril.

E se na actualidade a vivência democrática parece estar consolidada e arredada da ribalta a violência armada como forma de expressão e confronto político, a violência lato sensu continua a pairar no espectro social português. Em 2020 morreram 32 cidadãos vítimas da chamada violência doméstica, na sua maioria mulheres. Na estrada, conhecida que é a selvajaria ali praticada, morreram mais de 300 pessoas. Portugueses tomam parte em redes internacionais obscuras de tráfico humano e prostituição. Sucedem-se as agressões e as mortes à porta de estabelecimentos de diversão. A pancadaria continua usual como afirmação singular da masculinidade adolescente. Vulgariza-se o insulto e a agressão nas tricas de trânsito, o irracional que esmurra o transeunte ou o fulano do carro da frente, o atropelamento com fuga. Reincidem os tipos que não conseguem acalmar a boçalidade e a rivalidade clubística e desancam quem lhes surge pela frente; os paizinhos que não suportam ver o rebento perder um jogo nem a feijões em rixas nas bancadas dos jogos escolares. Perdura o ajuste pela sacholada na cabeça do vizinho que desvia a água de rega ou invade um poio. Avulta a revivescência e o germinar do ódio na política, os adversários tidos por inimigos ou mentecaptos, o insulto à falta de argumento nos hemiciclos, o enxovalhamento pessoal e o assassinato de carácter no bas-fond cobarde das redes sociais.

Tudo isto longe de ser a realidade comum ao povo português, são sinais extremamente preocupantes da forma de estar de alguns cidadãos em nada condizente com os alegados brandos costumes. São facetas de um estádio civilizacional embrutecido, distante da desejada convivência pessoal e social.

Enquanto as famílias, a sociedade, o Estado através da escola, não consolidarem os valores do respeito, da tolerância, da solidariedade, da igualdade, da liberdade, do direito à diferença, à autodeterminação, à crítica construtiva e à sã convivência, mais vítimas sofrerão por actos fúteis e nada brandos.

E levanta-se a indignação geral perante uma invasão além-fronteiras e vão-se escamoteando em silêncio estas verdadeiras guerras nos nossos quintais.

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